O jurista José Geraldo de Sousa Júnior, ex-reitor da UnB e dirigente do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), disse na segunda (19/10) que a reconstrução do diálogo entre brasileiros será tarefa central após a eleição. Em entrevista ao programa CB.Poder, ele alertou que o resultado das urnas por si só não basta para superar a polarização e que será preciso disposição para negociar, reconhecer diferenças e recuperar a política como instrumento de mediação.

Na avaliação de José Geraldo, o próximo mandato — seja qual for o vencedor — terá de lidar com limitações de sustentação parlamentar e com tensões entre os Poderes. Ele apontou que a continuidade do atual governo pode enfrentar obstáculos de governabilidade, enquanto a candidatura de Flávio Bolsonaro precisa esclarecer pontos do seu projeto político, sobretudo em economia e nas propostas de mudança constitucional que seus apoiadores defendem. Essa indefinição, segundo o jurista, complica a narrativa tanto para aliados quanto para eleitores indecisos.

Além da esfera institucional, José Geraldo destacou que a participação cidadã não termina no voto: o debate público e a mobilização social são essenciais para preservação de conquistas democráticas, a exemplo do período da redemocratização. Ele também identificou no fenômeno bolsonarista um caráter que transcende a dicotomia direita–esquerda, descrevendo-o como um 'ismo' que se apropió de formas de intolerância vistas em movimentos de extrema direita no exterior. Nesse contexto internacional, defendeu a recuperação do direito internacional como mecanismo de negociação previsível entre Estados, advertindo para o risco de escalada caso as regras multilaterais não sejam restabelecidas.

Questionado sobre a presença da religião na política, o jurista ponderou que a influência religiosa na cultura brasileira é legítima, desde que não determine decisões públicas nem subordine o Estado laico a convicções confessionais. Por fim, ao tratar da crise que envolve o Supremo Tribunal Federal, ele reforçou a necessidade de reformas que devolvam confiança institucional, sem, no entanto, detalhar propostas específicas. O diagnóstico de José Geraldo acende alerta para a próxima etapa: a nova gestão terá de combinar habilidade política, negociação e respeito a limites institucionais para evitar que a polarização amplie desgaste e comprometa direitos e estabilidade.