A escalada da judicialização das eleições acendeu um sinal de alerta para o funcionamento do processo democrático e para a própria credibilidade das urnas. Segundo análise de Sidney Neves, procurador especial eleitoral da OAB e presidente da Abradep, o volume de ações subiu de cerca de 350 em 2010 para mais de mil nesta eleição, um indicador claro de que disputas políticas estão sendo cada vez mais resolvidas no Judiciário em vez de no terreno eleitoral e político.
Parte desse movimento é endógena: partidos, campanhas e atores políticos têm recorrido à Justiça para denunciar supostos abusos e solicitar intervenções que, na prática, buscam alterar rumos eleitorais. O caso da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) do PSD sobre a eleição no Rio de Janeiro — que discute a negativa de registro e a anulação de votos ligados à candidatura de Garotinho — ilustra o potencial de as contestações resultarem em reconfigurações do pleito e até na convocação de eleições suplementares nas janelas previstas pelo calendário do TSE (a última prevista para dezembro).
Sidney Neves também chamou a atenção para os efeitos das decisões de última hora. Pedidos de prorrogação do horário de votação, movidos por campanhas que alegaram intempéries e problemas de transporte, foram atendidos em alguns locais após acionamento do Judiciário e diante da demora do TSE em deliberar. Embora essa medida não tenha alterado de forma significativa os índices de abstenção, produziu confusão entre eleitores e alimentou boatos sobre manipulação, erodindo confiança num momento sensível.
O quadro reforça consequências concretas: sobrecarga do sistema judicial, aumento do custo político de disputas encaminhadas ao tribunal, risco de decisões heterogêneas e perda de previsibilidade do calendário eleitoral. Para reduzir danos, a saída exige regras mais claras, prazos decisórios mais rápidos e maior transparência nas decisões do TSE. Sem essas correções, a tendência pode se consolidar e transformar o Judiciário num campo permanente de disputa política, com impacto direto na estabilidade institucional.