O programa de governo de Leonardo Avalanche, candidato do PRTB, reúne propostas ambiciosas e simultaneamente pontuais: a criação de um imposto único com alíquota de 3,5% para substituir tributos federais, estaduais e municipais; IPVA fixo de R$50 mensais; redução de taxas para motoristas de aplicativo; e promessa de zerar a fila do SUS por meio de mutirões, telemedicina e convênios com hospitais privados. No papel, o plano busca tornar a economia mais dinâmica e fomentar empreendedorismo, mas levanta questões centrais sobre sustentabilidade e execução.

Na área fiscal, a ideia de um "impostão" de 3,5% substituindo ICMS, ISS, IPI, PIS, Cofins, IOF, IRPJ, CSLL, IRPF e contribuições previdenciárias representa uma mudança estrutural de enorme impacto. A proposta acende alerta sobre a magnitude da perda ou reorganização de receita entre entes federativos: estados e municípios tendem a rejeitar a perda de arrecadação do ICMS e ISS, o que complica a narrativa oficial sobre viabilidade e exige compensações cujo custo não é detalhado no documento apresentado.

As medidas para o SUS — mutirões, telemedicina, uso de inteligência artificial para gestão de estoques e convênios com hospitais ociosos — podem reduzir filas pontualmente, mas não substituem financiamento regular e investimentos em capacidade produtiva e profissionais. Tratar zerar filas como objetivo imediato, sem explicitar fontes de recursos e modelos contratuais com hospitais privados, é uma promessa sujeita a risco operacional e fiscal. A proposta de monitoramento por IA e o uso intensivo de tecnologia na segurança pública também suscitam debate sobre custos, privacidade e regulação do reconhecimento facial.

No campo social e educacional, o programa mistura iniciativas de formação técnica — IA para personalizar ensino, currículo com foco em empreendedorismo — com medidas específicas, como o programa Abraço Azul para autistas e apoio a regulamentação do homeschooling. Há também estímulos ao emprego jovem via subsídio salarial e crédito para qualificação. Essas ações podem ter efeito positivo se integradas a um projeto orçamentário coerente; caso contrário, correm o risco de gerar expectativas sem fonte clara de financiamento.

Em suma, o plano de Avalanche combina propostas que podem atrair eleitores por prometer simplificação tributária e respostas rápidas a demandas sociais. Mas as incongruências entre corte radical de tributos, garantias de serviço público e ausência de detalhamento sobre compensações federativas e custos operacionais expõem contradições que podem aumentar a resistência política e técnica à implementação.