Integrantes do Planalto disseram ao Correio que o telefonema do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o chinês Xi Jinping, na madrugada de domingo (26/7) e com duração superior a uma hora, não foi um ato improvisado em resposta ao recrudescimento da tensão com os Estados Unidos ou aos ataques recentes do presidente da Argentina. Segundo a versão oficial, a interlocução vinha sendo construída há semanas e integra uma política deliberada de diversificação de mercados e parcerias na Ásia.
No diagnóstico palaciano, a aproximação com Pequim é continuidade de uma agenda ativada ainda no fim de 2024, após a eleição de Donald Trump nos EUA: viagens presidenciais a Índia, Japão, Indonésia e Malásia e negociações para ampliar espaços comerciais teriam prioridade para reduzir a vulnerabilidade brasileira diante de mudanças na política externa americana. A prioridade por concluir o acordo Mercosul-União Europeia também teria sido reavaliada nesse contexto.
A leitura oficial evita apresentar o telefonema como reação a episódios pontuais, mas o gesto tem efeito político imediato. Mesmo que premeditada, a conversa com Xi envia sinais claros tanto a Washington quanto a mercados — projetando um Brasil que busca alternativas estratégicas e menos dependência dos EUA. Esse reposicionamento pode proteger interesses comerciais, mas também exige habilidade diplomática para evitar escaladas desnecessárias com um parceiro tradicional.
Do ponto de vista prático, a operação de diversificação descrita pelo Planalto mostra coerência com iniciativas externas recentes. Resta, porém, a pergunta política: até que ponto a aceleração dessa agenda dilui custos econômicos e eleitorais potenciais, ou se, ao contrário, amplia um novo eixo de atrito que exigirá mais articulação do governo nas três frentes — econômica, política e institucional.