Aos 12 anos, o cearense Lucca Fontes Aragão conquistou uma aprovação rara: entrou no curso de licenciatura em Matemática da Universidade Estadual do Ceará (UECE) depois de obter nota máxima e o 29º lugar no vestibular. Hoje com 13 anos, ele soma vitórias em competições escolares — primeiro lugar no Nível 1 da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) com nota máxima e medalhas de ouro na Olimpíada Brasileira de Física (OBF) e na Olimpíada Brasileira de Informática (OBI) — e busca objetivos ambiciosos, como vagas em instituições de referência nacional e internacional, entre elas ITA e MIT, e a participação na Olimpíada Internacional de Matemática (IMO). Em 2025 recebeu diagnóstico de altas habilidades com QI apontado em 136.

A trajetória do menino não se deu sem percalços. Em 2023, ele não conseguiu entrar no colégio militar almejado; a família identifica na falta de prática na gestão do tempo a principal causa. Depois, intensificaram-se os simulados e a preparação, e na prova decisiva Lucca concluiu a avaliação uma hora e meia antes do término, resultado da facilidade nas questões. Filho de um professor de matemática e de uma nutricionista, mantém rotina que combina estudos, competições e práticas esportivas — um componente que, segundo a família, refletia desde cedo sua capacidade de antecipar jogadas e perceber posicionamento.

O caso tem dimensão além do mérito pessoal: expõe lacunas da política educacional na identificação e no suporte a jovens com altas habilidades. A dependência do empenho familiar e de recursos para cursinhos preparatórios revela um problema de equidade: talentos podem ficar subaproveitados se não houver triagem sistemática, formação de professores e programas escolares que integrem aceleração acadêmica ou enriquecimento curricular. A proficiência por meio de olimpíadas mostra um caminho, mas não substitui políticas públicas que garantam acesso amplo e contínuo a oportunidades especiais.

Do ponto de vista político, histórias como a de Lucca acendem alerta sobre a narrativa de inclusão no ensino público: sem ações dirigidas, o Estado corre o risco de perder capital humano ou de transferir ao mercado e às famílias a tarefa de identificar e promover talentos. Há consequência prática e simbólica: além de frustrar trajetórias promissoras, a omissão amplia desigualdades. O desafio é conciliar estímulo à excelência com proteção da infância e com oferta pública que torne replicável o apoio que, no caso de Lucca, teve papel decisivo.