A mais recente pesquisa Datafolha, divulgada a poucos dias do primeiro turno, revela uma divisão clara do eleitorado por religiosidade: entre católicos, Luiz Inácio Lula da Silva alcança 50% das intenções de voto no primeiro turno, ante 32% de Flávio Bolsonaro. Entre evangélicos, a tendência se inverte: Flávio marca 52% e Lula 26%. O levantamento, com 2.506 entrevistas realizadas entre 29 de setembro e 1º de outubro, tem margem de erro de dois pontos.

Os números confirmam que a religião virou eixo de disputa eleitoral — e traz consequências práticas. Para Lula, a hegemonia entre católicos reforça a necessidade de preservar essa base, mas também evidencia um teto de penetração em grupos religiosos conservadores. Para Flávio Bolsonaro, a liderança entre evangélicos indica uma reserva de votos mais consolidada, que pode ser decisiva em cenários polarizados, mas também aponta para um desafio central: ampliar o apoio além do universo religioso que já lhe é favorável.

Do ponto de vista tático, a pesquisa muda prioridades de campanha. As candidaturas tendem a calibrar discurso e alianças: mensagens que reforcem valores comuns aos católicos ou que aprofundem laços com lideranças evangélicas podem ser intensificadas. Ao mesmo tempo, a leitura do Datafolha impõe limites práticos: o próprio instituto havia medido em julho que 67% dos entrevistados afirmaram que a opinião de líderes religiosos não influenciaria o voto — um lembrete de que adesões formais não se traduzem automaticamente em transferências eleitorais absolutas.

Analistas e marqueteiros alteram, portanto, o foco entre conversão de base e ampliação de eleitorado. A forte diferenciação por religião pode aumentar a volatilidade em estados e regiões onde um dos segmentos tem peso demográfico maior, e elevar o papel de mobilização de campo e de mensagens segmentadas. Também coloca em perspectiva riscos institucionais e políticos: a instrumentalização excessiva de pautas religiosas pode reforçar a polarização cultural e limitar acordos necessários em um eventual segundo turno.

Por fim, é preciso lembrar que pesquisa é retrato de momento. O Datafolha registrou o estudo no TSE sob o número BR-08039/2026 e a margem de erro obriga cautela: oscilações dentro do intervalo podem reduzir distâncias, e fatores de última hora — debates, eventos ou decisões judiciais — ainda podem alterar o quadro. Mesmo assim, a divisão por fé já impõe uma agenda concreta para as campanhas: quem quiser vencer precisa demonstrar estratégia para manter sua base e, simultaneamente, reduzir a vantagem do adversário nos segmentos religiosos onde ele é mais forte.