O início efetivo da campanha de Flávio Bolsonaro nas ruas e pesquisas que apontam empate técnico mudaram a dinâmica eleitoral para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O episódio que vinha sendo tratado como gestão de rotina — a desincompatibilização de auxiliares — ganhou outro significado político: com a saída de ao menos 18 ministros e a substituição de boa parte deles por secretários-executivos, o Planalto sinaliza que passou a priorizar a montagem de palanques regionais.

Na prática, a operação é uma tentativa de recompor capilaridade política que o governo não consegue mais assegurar apenas com o peso da máquina federal ou com a memória dos mandatos anteriores de Lula. A aposta é transformar nomes com envergadura local e nacional — como Fernando Haddad em São Paulo e Eduardo Paes no Rio — em âncoras capazes de agregar centro e centro-esquerda e frear a transferência automática de votos para o campo oposicionista representado por Flávio.

A disputa deixou de ser um passeio para Lula.

O Rio de Janeiro aparece como peça central dessa estratégia. A saída de Paes da prefeitura para disputar o governo fluminense busca montar um palanque amplo, com apelo pragmático que reúna setores moderados e eleitorado municipal. Para o Planalto, consolidar o controle político no estado é tanto um desafio simbólico quanto tático: o Rio é reduto afetivo da família Bolsonaro e terreno onde o discurso de segurança tem ressonância, mas também onde o pragmatismo eleitoral pode favorecer coligações amplas.

Em São Paulo o desafio é diferente e mais pesado. Tarcísio de Freitas, com o governo nas mãos e liderança nas pesquisas, concentra condições difíceis de neutralizar. A escolha de Haddad para disputar o estado mostra que Lula optou por enfrentar o favoritismo com um nome de alta identidade programática, mas a tentativa de compor palanques com figuras como Simone Tebet e Marina Silva revela que é preciso ampliar o espectro para sinalizar moderação a eleitores centristas. Sem um palanque robusto e plural em São Paulo, a candidatura governista corre risco real de perder margem decisiva.

A montagem de palanques estaduais marca, portanto, uma mudança de etapa: sai a operação de gabinete e entra a campanha territorial. Esse movimento expõe vulnerabilidades — a necessidade de costurar alianças locais, a pressão sobre cacifos regionais e o custo político de deslocar titulares — e ao mesmo tempo aponta uma resposta pragmaticamente necessária ao avanço oposicionista. A disputa deixa de ser apenas sobre figura nacional e passa a ser batalha estado a estado, com consequências diretas para a viabilidade eleitoral de 2026.

Agora é reconstruir palanques estado por estado.