Em entrevista à TV Globo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ser pessoalmente favorável a reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos, mas deixou claro que não quer a inclusão do tema na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. Segundo o presidente, a prioridade é aprovar a PEC antes de abrir nova discussão sobre a maioridade.

A posição de Lula cristaliza uma divisão prática entre tendência pessoal e estratégia legislativa: enquanto o senador Camilo Santana (PT‑CE) propôs fixar 16 anos para crimes hediondos, a campanha e parte da bancada petista têm defendido que a PEC tramitar sem mexer na maioridade. O impasse já levou ao adiamento da votação no Senado e alimentou tentativas da oposição de inserir mudanças mais duras, como a proposta para reduzir a idade a 14 anos apresentada por aliados do PL.

O recuo quanto à inclusão imediata do tema tem efeito direto sobre a dinâmica de votação: ao separar os dois debates, o governo busca evitar que controvérsias sobre punição a juvenis travem a aprovação do pacote amplo de medidas de segurança. Contudo, a opção também expõe o PT a críticas por contrariar posições históricas e abre espaço para que adversários transformem a questão em arma política nos parlamentares indecisos.

Na mesma entrevista, Lula defendeu maior participação federal na segurança pública, com proposta de criação de um Ministério da Segurança e anúncio de intenção de financiar 138 presídios, incluindo unidades de segurança máxima. O presidente destacou ainda a prioridade em atacar financeiramente as facções e retomar territórios dominados por organizações criminosas. Essas medidas ampliam o escopo da atuação federal, mas implicam custos e necessidade de articulação com estados e Congresso.

A declaração tende a manter a PEC como ponto focal imediato das negociações no Senado e empurra a discussão sobre redução da maioridade para um segundo momento, quando exigirá novo esforço de costura política. Para o governo, será preciso transformar a posição pessoal do presidente em uma estratégia capaz de neutralizar pressões externas, preservar a chance de aprovação da PEC e explicar à opinião pública os limites e consequências de avançar separadamente sobre a maioridade penal.