Em entrevista à Rádio Tupi, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vinculou diretamente o escândalo em torno do Banco Master à gestão de Jair Bolsonaro, responsabilizando a administração anterior pela criação da instituição e classificando as suspeitas como um episódio que "contamina" o Judiciário. Ao relacionar a origem do banco ao Banco Central na gestão anterior, Lula renovou a ofensiva política sobre a responsabilidade pela crise e afirmou que o caso abre espaço para retomar o debate sobre uma reforma do Poder Judiciário — mas com condição: resolver primeiro as apurações em curso.

O presidente disse que o governo federal conduz investigações com cautela e citou ter recebido o empresário Daniel Vorcaro, que teria reclamado de perseguição. Lula defendeu que não fará "piroteria" antes da contraprova, uma tentativa de mostrar distância entre o Executivo e as investigações. Ainda assim, a atribuição pública de culpa a Bolsonaro acende alerta político: a manobra desloca o custo político ao antecessor, mas também pode ser interpretada como tentativa de moldar a narrativa pública sobre a crise, o que complica a percepção de isenção das apurações e pode gerar reação entre magistrados e opositores.

No diagnóstico sobre o STF, o presidente pediu maior compromisso ético dos integrantes da Corte e disse que a instituição sofre desgaste com as suspeitas que atingiram parte do sistema. Ele defendeu o papel desempenhado pelo ministro Alexandre de Moraes no processo eleitoral e relativizou as críticas do senador Flávio Bolsonaro, vinculando-as mais à prisão do ex-presidente do que ao caso do Master. Ao recordar fatos como a prisão de generais e a investigação sobre tentativa de golpe, Lula insere o episódio em um quadro mais amplo de tensão institucional e de recomposição do debate sobre accountability no alto escalão do Estado.

O efeito político é duplo. Para o governo, acusar Bolsonaro pode reduzir imediata pressão sobre a base aliada, transferindo responsabilidade, mas também amplia desgaste institucional ao colocar a proposta de reforma do Judiciário no centro de um conflito que depende de provas ainda em apuração. A alternativa defendida por Lula — condicionar a reforma à resolução das investigações — tenta conciliar a crítica ao passado com a necessidade de não politizar de vez o processo. Resta saber se a estratégia será suficiente para transformar um momento de crise em agenda de mudança sem aprofundar a desconfiança entre Poderes.