O presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, reafirmou nesta quinta-feira (24/9), em caminhada por São Gonçalo (RJ), que não aceitará qualquer tentativa de intervenção externa no processo eleitoral brasileiro. Ao mencionar o presidente dos Estados Unidos, ele disse ter avisado previamente que reações a uma interferência seriam negativas para quem a praticar, repetindo a preocupação com a soberania do pleito.
A fala ocorre no contexto de um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que identifica ações norte-americanas relacionadas ao período eleitoral, e da decisão da campanha petista de acionar o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) para barrar possíveis ingerências. No Planalto, ministros e auxiliares veem sinais de que a administração de Donald Trump pode atuar contra a reeleição de Lula, mas aliados avaliam que a ausência do Brasil no Escudo das Américas dificilmente terá efeito imediato sobre o primeiro turno.
O episódio também teve dimensão diplomática: em Nova York, durante a Assembleia Geral da ONU, houve desencontro entre os presidentes — sem diálogo registrado entre eles — e divergência de estratégias sobre o combate ao crime organizado. Com o Brasil ausente, Trump articulou o Escudo das Américas, coalizão que reúne 13 países para enfrentar facções criminosas. Para o governo brasileiro, esse tipo de iniciativa pode abrir portas para inserções norte-americanas em áreas econômicas e de infraestrutura, incluindo acesso a minerais críticos, conforme aponta a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA citada por interlocutores do Planalto.
Politicamente, a denúncia de possível ingerência transforma-se em arma de mobilização eleitoral e também em desafio institucional: cabe agora à Abin e ao Judiciário a tarefa de demonstrar a natureza e a extensão das ações apontadas, enquanto o Executivo tenta evitar que o tema escale para uma ruptura diplomática. Num cenário em que Washington pode preferir esperar o resultado do primeiro turno para calibrar ações no segundo, a questão já acende um alerta sobre os limites entre segurança eleitoral, soberania nacional e a influência externa nas próximas semanas de campanha.