O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou nesta segunda-feira a proposta anunciada pelo presidente dos Estados Unidos de impor uma taxa de 20% sobre embarcações que transitem pelo Estreito de Ormuz. Em visita a laboratórios do Instituto Mauá de Tecnologia, em São Caetano do Sul (SP), Lula afirmou que a cobrança se assemelharia a uma prática de pirataria e lamentou que um país que historicamente combateu esse tipo de ação dê esse passo.

A iniciativa de Washington, que ainda não detalhou como a tarifa seria cobrada ou aplicada, levanta questões jurídicas e diplomáticas. Em termos de direito marítimo, passagens naturais como o Estreito de Ormuz costumam não ser sujeitas a pedágios, ao contrário de rotas artificiais — caso dos canais do Panamá e de Suez — onde obras e gestão justificam tarifas. A falta de clareza sobre implementação amplia a incerteza entre operadores e governos.

No plano doméstico, Lula afirmou que os efeitos de choques externos já chegam aos brasileiros, pressionando o preço dos combustíveis e, por consequência, dos alimentos. O presidente citou impactos em itens básicos e defendeu que medidas internas — como a aplicação de uma alíquota de 12% sobre exportações de petróleo, adotada pelo governo — tiveram como objetivo atenuar reflexos no abastecimento local. A leitura oficial é de proteção do mercado interno diante da volatilidade internacional.

Politicamente, o episódio oferece múltiplas leituras: para o governo brasileiro, reforça o argumento em favor da transição energética e da redução da dependência de combustíveis fósseis; para a comunidade internacional, coloca os Estados Unidos sob fogo cruzado por alterar um padrão de atuação em rotas estratégicas. Até que Washington esclareça o modelo de cobrança, o tema deve continuar a gerar debates sobre normas marítimas, segurança jurídica e consequências econômicas para o comércio global e para os bolsos dos consumidores.