Em entrevista ao programa Canal Livre, exibida na noite de domingo, o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reafirmou a defesa de uma estratégia nacional para inteligência artificial. "Não quero ficar dependendo da inteligência artificial chinesa, muito menos americana", disse o presidente, lembrando que há dois anos desafiou o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia a pensar numa IA que fale português.
A proposta de uma IA em língua portuguesa tem apelo político claro: fala à soberania digital e ao temor de dependência tecnológica. Do ponto de vista técnico e econômico, porém, trata-se de projeto de longo prazo que exige investimentos em pesquisa, formação de mão de obra especializada, parceria entre universidades e setor privado, e coordenação institucional. Sem esses elementos, a promessa corre o risco de virar discurso eleitoral sem entrega concreta.
No mesmo entrevista, Lula voltou a defender a PEC da Segurança, iniciativa que busca definir papel mais central da União na área. A proposta, parada por meses no Congresso e agora com relatores definidos, promete ampliar a atuação federal em segurança pública. A ideia de dar mais ferramentas ao governo federal tende a provocar debate com governadores e a suscitar questionamentos jurídicos sobre divisão de competências entre União e Estados.
As duas declarações — sobre IA e segurança — formam um recado político: o governo quer projetar capacidade estatal em agendas sensíveis. Mas ambas as frentes acendem alerta sobre custos e complexidade. Construir tecnologia própria e alterar regras de segurança exigem articulação no Congresso, recursos e tempo; sem isso, a iniciativa pode complicar a narrativa oficial ao criar expectativas que serão difíceis de cumprir.