A disputa sobre a devoção a Nossa Senhora Aparecida virou pauta central na reta final da campanha presidencial. Nos atos em Fortaleza e Salvador, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva buscou capitalizar o tema tomado por boatos que associaram o senador Flávio Bolsonaro a uma iniciativa para retirar da santa o título de padroeira do Brasil. O episódio levou Lula a reafirmar compromisso com a tradição católica e a explorar a controvérsia como trunfo eleitoral.
Do outro lado, a campanha de Flávio reagiu com nota reiterando respeito a todas as crenças e explicando que o presidenciável pretende realizar uma oração de agradecimento na posse. A associação do senador a uma suposta proposta de retirada do título decorre de uma matéria sobre um projeto arquivado há quase duas décadas, que foi reaproveitada em mecanismos de desinformação. A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) negou qualquer participação na produção ou disseminação das alegações e exigiu responsabilidade no debate público.
Politicamente, o confronto expõe duas consequências imediatas. Para Lula, ocupar o espaço simbólico da fé ajuda a neutralizar críticas entre eleitores católicos e a transformar um boato contra o adversário em tema de atração. Para Flávio, a necessidade de desmentir e enfatizar respeito a diferentes religiões complica a narrativa de campanha e o obriga a deslocar o foco para questões de imagem e credibilidade. O episódio também acende alerta sobre o papel da desinformação em temas sensíveis, que podem polarizar eleitores e alterar estratégias nos dias finais.
A poucos dias da eleição estadual no Ceará e nacionalmente com atos em estados-chave, a disputa sobre Nossa Senhora revela custos políticos para ambos os lados: Lula ganha espaço simbólico, mas corre o risco de polarizar a pauta religiosa; Flávio precisa conter o desgaste e restaurar confiança entre eleitores conservadores. O caso evidencia, ainda, a necessidade de checagem e moderação no debate público, onde boatos podem transformar-se rapidamente em arma de campanha e repercutir além da intenção original.