Em visita a Lisboa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que os imigrantes brasileiros são "um povo trabalhador" ao lado do primeiro‑ministro Luís Montenegro. O elogio, dirigido à comunidade que já ultrapassa meio milhão de pessoas no país, ressaltou a qualificação da mão de obra brasileira e a presença crescente de profissionais e famílias no mercado português.
O contexto, porém, traz elementos sensíveis: no fim do ano passado Portugal aprovou uma legislação mais rígida de imigração, ampliando possibilidades de deportação e dificultando regularizações e pedidos de cidadania. Paralelamente, há registro de aumento de casos de xenofobia contra brasileiros — tema que Montenegro citou ao negar uma onda generalizada, mas que ganhou atenção pública. Lula, no entanto, optou por não mencionar nem as mudanças legais nem os episódios de discriminação em seu discurso.
A omissão é relevante do ponto de vista político e diplomático. Ao priorizar a defesa da imagem dos emigrantes e os laços comerciais e humanos entre os países, o governo brasileiro evita atrito público com Lisboa, mas também deixa sem resposta política imediata preocupações de brasileiros no exterior sobre segurança, proteção consular e caminhos para regularização. A escolha sinaliza mais ênfase em narrativa positiva do que em cobrança institucional sobre direitos dos migrantes.
Para o Planalto, o gesto tem ganhos simbólicos: reforça laços bilaterais e protege a imagem de uma diáspora numerosa. Mas a falta de menção às medidas que dificultam a permanência e ao aumento de incidentes xenófobos pode gerar desgaste entre emigrantes e defensores dos direitos humanos, além de abrir espaço para críticas da oposição e questionamentos sobre a efetividade da atuação diplomática brasileira.