O presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregou pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, uma relação de autoridades e familiares brasileiros que têm o visto suspenso, segundo disse nesta quinta-feira em coletiva na Embaixada do Brasil em Washington. Lula afirmou esperar que a mudança no tratamento da dosimetria pelo Congresso — que reduziu penas para condenados dos atos de 8 de janeiro e teve veto presidencial derrubado — torne mais plausível uma revisão das sanções americanas.
O projeto conhecido como dosimetria, aprovado no Congresso no ano passado, beneficia presos ligados aos ataques de 8 de janeiro e figura entre as derrotas políticas do governo ao ter o veto derrubado recentemente. O texto ainda não foi promulgado. As sanções em questão atingem, conforme o Executivo brasileiro afirma, ministros do Supremo Tribunal Federal e agentes do próprio governo, além de familiares de autoridades — circunstância que Lula citou como motivo humanitário e diplomático para o pedido.
A iniciativa de levar a lista ao presidente dos EUA tem dois efeitos políticos claros. Primeiro, demonstra a tentativa do Planalto de internacionalizar um problema doméstico e buscar interlocução externa diante da falta de tração interna. Segundo, evidencia o custo político da derrota no Congresso: ao ver seu veto derrubado, o governo perde um instrumento para moldar a narrativa jurídica e diplomática sobre o tema. A manobra acende alerta sobre a fragilidade da estratégia executiva quando confrontada com maiorias legislativas contrárias.
Ainda que Lula assegure que a entrega do rol de nomes é tentativa de proteger cidadãos afetados, a reabertura do tema perante Washington não garante resultado. A revogação das sanções depende de avaliação soberana do governo americano e de critérios que vão além de mudanças no ordenamento penal doméstico ainda não sancionadas. Para o Planalto, a ação procura reduzir impactos imediatos; para opositores e parte da opinião pública, pode ser vista como tentativa de transferir para o exterior a responsabilidade por contornos políticos e jurídicos que se decidiram no Congresso.