Durante o confronto televisionado com Flávio Bolsonaro na noite de sexta-feira (23), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que Déa Lúcia, mãe do humorista Paulo Gustavo, foi convidada para assistir ao debate nos estúdios da TV Globo. A menção surgiu no segundo bloco, quando Lula fazia a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e criticava a condução da pandemia pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ao lembrar do convite e do sofrimento da família de Paulo Gustavo — morto em maio de 2021 por complicações da Covid-19 — o presidente buscou dar um recorte humano à disputa sobre política de saúde. Lula ressaltou o papel do SUS no atendimento durante a crise sanitária e voltou a contestar declarações de Bolsonaro sobre vacinas e a promoção de tratamentos sem eficácia comprovada, enquadrando o debate como uma disputa de narrativas sobre responsabilidade pública e vidas perdidas.
Politicamente, a estratégia tem dois efeitos claros: primeiro, humaniza a crítica ao bolsonarismo ao associá‑la a vítimas reconhecíveis pela opinião pública; segundo, amplia desgaste da defesa negacionista ao transformar diferenças técnicas em custo moral. A participação, na primeira fila, de Cristiane Gomes da Silva — mãe de Ana Clara, criança morta por disparo policial em Niterói — reforça esse cenário, sinalizando que o governo aposta em testemunhos pessoais para dar peso às acusações contra a gestão anterior.
A tática de colocar testemunhos em debates pode complicar a narrativa da oposição ao transformar argumentos sobre política pública em disputa de memória e empatia. Para o governo, ajuda a mobilizar símbolos e a marcar a agenda em torno do SUS; para a oposição, representa um desafio tático: rebater com dados e propostas sem soar insensível às perdas que marcaram a pandemia e a violência pública.