A uma semana do primeiro turno, a disputa pelo chamado voto útil tornou-se peça central nas estratégias de campanha. Levantamento do Datafolha divulgado nesta semana mostra Lula com 40% das intenções e Flávio Bolsonaro com 36% no primeiro turno; Cury aparece com 5%, Caiado com 4%, Renan com 3% e Zema com 1%. No segundo turno, a pesquisa aponta empate técnico: Lula 47% e Flávio 45%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Esses números colocam a conversão de intenção em voto como variável decisiva para ambos os lados.

No campo da direita, a orientação é explícita: concentrar o eleitorado antipetista em torno de Flávio para reduzir a dispersão que poderia favorecer o adversário no segundo turno. Líderes do PL vêm trabalhando a narrativa de que só um nome competitivo já no primeiro turno garante a travessia da polarização com vantagem. O próprio recorte do Datafolha, ainda relativo ao segundo turno, dá algum respaldo à movimentação: entre eleitores de Cury, Caiado, Zema e Renan, 43% dizem que votariam em Flávio contra Lula, enquanto 30% optariam pelo petista e 26% indicam voto branco, nulo ou nenhum.

Do lado petista, a estratégia foca menos na implosão de candidaturas e mais na consolidação da base, alcance dos indecisos e tentativa de trazer eleitores de outras opções. A campanha de Lula intensificou mensagens destinadas a reduzir a migração de votos para nomes à direita e a reforçar temas de soberania e políticas sociais como diferenciais eleitorais. Para o PT, a leitura é que manter a liderança exige não só a fidelização do eleitor já declarado, mas também a penetração junto aos que ainda avaliam alternativas.

O fenômeno do voto útil tem efeitos práticos imediatos: pressiona os candidatos do centro a justificarem sua continuidade até a última semana, torna mais provável estratégias de apelo valendo-se do cálculo eleitoral em vez de propostas detalhadas e impõe à comunicação de campanha a tarefa de transformar intenção em comparecimento às urnas. Para Flávio, a conversão desses eleitores pode abrir caminho para um resultado direto ou um segundo turno com vantagem estreita; para Lula, é crucial evitar uma erosão que complique uma narrativa de vitória consolidada.

Além do impacto imediato no resultado, a disputa pela concentração de votos acende um alerta mais amplo sobre a volatilidade do eleitorado e a fragilidade das candidaturas intermediárias. Se a tendência de migração se intensificar, o que está em jogo não é só o avanço de um dos dois líderes, mas a redefinição rápida do mapa político na véspera da votação — um custo que traz consequências tanto para a governabilidade quanto para a estratégia de alianças no caso de segundo turno.