O retrato das intenções de voto para 2026 traçado pelo cruzamento de pesquisas do Datafolha e da Quaest divulgado pela Folha revela uma disputa presidencial claramente regionalizada. Segundo o levantamento que compilou levantamentos nas 27 unidades da Federação ao longo das últimas três semanas, Luiz Inácio Lula da Silva aparece à frente em dez estados, enquanto o senador Flávio Bolsonaro lidera em nove estados e no Distrito Federal. Em seis unidades, a vantagem entre os dois está dentro da margem de erro, mostrando uma disputa ainda fluida em vários colégios eleitorais.

A divisão segue padrões próximos aos de eleições anteriores: Lula concentra sua força no Nordeste, liderando em todos os nove estados da região — com desempenhos mais expressivos em Piauí (60% a 19%) e Maranhão (58% a 20%) — e também aparece à frente no Pará. Já Flávio obtém melhor desempenho no Sul e em boa parte do Centro-Oeste: seus maiores percentuais são em Roraima (52%) e 45% em Santa Catarina e Rondônia. Nos três grandes colégios do Sudeste, a disputa permanece tecnicamente empatada: São Paulo registra 35% para Flávio e 33% para Lula; Rio de Janeiro traz 39% a 35% a favor de Flávio; Minas tem 37% para Lula e 35% para o senador — diferenças pequenas que mantêm a região como campo decisivo.

O mapa apresenta, porém, pontos que complicam narrativas simplistas. Em Goiás, a presença de Ronaldo Caiado (28%) cria um triângulo competitivo: Flávio tem 27% e Lula 20% na medição da Quaest, deixando o estado longe de uma polarização direta. O Distrito Federal, assim como São Paulo, Minas, Ceará e Mato Grosso do Sul, figura entre locais onde outras candidaturas encontram espaço maior, o que pode transformar estratégias locais em variáveis cruciais. Ao mesmo tempo, estados como Alagoas, Maranhão e Rio Grande do Norte mostram forte concentração em Lula, reduzindo margem para concorrentes nesses colégios.

Do ponto de vista político, a pesquisa acende alerta para o governo. A concentração de vantagem de Lula no Nordeste não basta para garantir um quadro nacional confortável se o presidente não recuperar ou ao menos reduzir distâncias nas regiões Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste — onde Flávio aparece mais competitivo. Para a oposição, os números sinalizam força territorial, mas também mostram que a eleição não está decidida: o empate técnico em estados-chave obriga Flávio a manter foco no Sudeste e a transformar lideranças regionais em votos efetivos. A análise é um retrato do momento, não uma previsão, mas já sugere implicações práticas: redistribuição de recursos de campanha, prioridade a programas regionais e maior pressão sobre bases partidárias locais que terão papel decisivo na consolidação das candidaturas.