A mudança de tom da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o segundo turno, com vídeos em formato de selfie, produziu resultados visíveis: um dos posts ultrapassou 26,2 milhões de visualizações, e outros dois marcaram 18,1 milhões e 11,9 milhões. Ainda assim, o ganho nas métricas não impediu que a coordenação petista levantasse suspeitas sobre o funcionamento do algoritmo da Meta. Um documento interno da Secretaria Nacional de Comunicação do PT, obtido pela imprensa, afirma haver indícios de que o alcance das publicações de Lula estaria sendo restringido em benefício do candidato do PL — um dado que motiva a abertura de uma ação judicial eleitoral.

O relatório citado pelo partido compara o desempenho das páginas: embora a conta ligada a Flávio Bolsonaro tenha 17,2% menos seguidores, sua média de curtidas e comentários por publicação seria cerca de 2,96 vezes superior à da página de Lula. Ao normalizar pelo número de seguidores, a taxa de engajamento apontada no documento é de 10,23% para Flávio, contra 2,86% para Lula. Com base nessas divergências a coligação Brasil Pronto pra Mais — que reúne PT, PV e PCdoB — pediu à Justiça Eleitoral a abertura de uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), alegando ainda o uso de uma rede de páginas e collabs destinadas a impulsionar publicações favoráveis ao candidato do PL e, em alguns casos, a monetização de conteúdo eleitoral com desinformação.

A solicitação foi aceita e a investigação está em curso. O pedido argumenta que a prática viola proibições legais sobre recomendação e monetização de propaganda eleitoral em redes sociais e que a atuação descrita não seria fruto apenas de apoiadores independentes, mas de uma estrutura coordenada ligada à própria chapa do senador. Há ainda relatos sobre anomalias técnicas — como vídeos que parecem registrar mais curtidas que visualizações ou contagens que param de crescer quando um post começa a repercutir —, episódio que alimenta a desconfiança, embora não exista, até o momento, confirmação pública de ação deliberada por parte da Meta.

Se comprovadas irregularidades na distribuição de conteúdo, o desdobramento prático pode ser amplo: além de forçar pedidos de transparência e a eventual requisição judicial de dados de distribuição das plataformas, a disputa judicial amplia o terreno de conflito entre partidos, plataformas e o Judiciário em pleno período eleitoral. Para a campanha de Lula, a descoberta de limitações artificiais no alcance explicaria o contraste entre alcance orgânico dos vídeos e a percepção de perda de espaço digital, e acende alerta sobre a dependência de plataformas privadas para a comunicação política. Ao mesmo tempo, a narrativa de possível censura pode ser explorada politicamente, mobilizando simpatizantes e reagendando prioridades de mídia — tudo isso sem que, por ora, exista prova definitiva que convide a uma conclusão apressada. A investigação judicial, portanto, será um termômetro: retrata o desafio técnico e político das campanhas digitais e pode complicar ainda mais a correlação entre desempenho nas redes e resultado nas urnas.