O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou neste fim de semana a ofensiva contra os sites de apostas on-line, publicando nas redes sociais um vídeo em que ouve relatos de pessoas que dizem ter contraído dívidas elevadas com o vício nas plataformas. A publicação alcançou grande alcance: até a noite de ontem o vídeo somava cerca de 174 mil visualizações no X e quase 20 mil compartilhamentos no Instagram. Na legenda, o presidente afirmou que o problema tem destruído famílias e voltou a prometer medidas mais duras contra as empresas do setor.

A reação do Palácio foi rápida: aliados ouvidos pela equipe do presidente indicam que o governo estuda editar uma medida provisória nos próximos dias para restringir a atuação das casas de apostas, que já contam com uma regulamentação implementada em 2024. O timing — a menos de duas semanas do primeiro turno eleitoral — coloca a iniciativa no centro de uma disputa política que mistura agenda social, consumo e regulação econômica, e sugere objetivo simultaneamente simbólico e prático por parte do Executivo.

No plano econômico e social, o governo tenta vincular o crescimento do endividamento familiar ao aumento de apostadores no país. Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostram que 82% das famílias brasileiras estão endividadas e que 12,5% afirmam não ter condições de quitar débitos em atraso, o maior percentual desde fevereiro. Porém, a própria pesquisa da CNC identifica cartões, cheque especial e financiamentos como principais fontes do problema, sem atribuir diretamente às plataformas de aposta a responsabilidade sobre a tendência recente de endividamento.

A proposta presidencial já provoca reação de setores ligados ao futebol: clubes como Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo e Cruzeiro assinaram manifesto alertando que a proibição das apostas on-line poderia ameaçar receitas importantes do esporte. Segundo as entidades, 13 clubes da primeira divisão mantêm contratos de patrocínio master com sites de aposta e temem que restrições transfiram consumidores para plataformas clandestinas, sem impostos e sem mecanismos de proteção ao apostador. Esse argumento aponta um dilema concreto entre medidas de proteção social e impactos econômicos imediatos em setores dependentes desses contratos.

Além do conflito com clubes e patrocinadores, a iniciativa presidencial enfrenta ceticismo do próprio mercado de apostas sobre a eficácia de uma medida provisória como solução estrutural para o problema do vício e do endividamento. Do ponto de vista político, a ofensiva reforça o perfil interventor do governo em questões de consumo e proteção social, mas também abre um novo foco de desgaste — especialmente se a restrição conflitar com interesses econômicos locais e levar à narrativa de risco ao financiamento do futebol. Resta saber se a estratégia produzirá ganhos políticos na reta final da campanha ou se ampliará resistências em setores que hoje sustentam receitas e visibilidade do esporte brasileiro.