O presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou ao apóstolo Estevam Fernandes e ao advogado‑geral da União, Jorge Messias, para justificar a sua ausência na 34ª Marcha para Jesus, realizada em São Paulo. Segundo a interlocução relatada, Lula disse preferir não participar de eventos religiosos em período eleitoral para evitar a impressão de que estaria se valendo da fé para obter vantagem política. No contato, o presidente também agradeceu por Messias representar o governo no evento e lembrrou que a marcha foi regulamentada por lei sancionada durante seu mandato em 2009.

Apesar de evitar a presença pessoal, o governo esteve representado: Jorge Messias participou e fez discurso que reforçou a ideia de adoração sem divisão política, afirmando que o encontro não deveria se transformar em palanque. A escolha de enviar o AGU, em vez de um ministro político, é um gesto calculado para reduzir atritos, mas mantém o governo no evento.

Do outro lado do espectro político, o senador Flávio Bolsonaro marcou presença e usou o microfone para uma mensagem de tom claramente eleitoral, convocando a base a uma resposta político‑religiosa. A cena — lideranças governistas ausentes pessoalmente e oposicionistas em destaque — mostra o risco constante de que manifestações religiosas se transformem em momentos de visibilidade política, independentemente das intenções declaradas.

Em ano de campanha, o recado de Lula busca administrar a percepção pública: evitar a acusação de instrumentalização da fé, sem, contudo, abandonar por completo a presença institucional. A solução cria um equilíbrio delicado — reduz a exposição direta do presidente, mas também pode abrir espaço simbólico para adversários que escolham transformar cerimônias religiosas em palanques eleitorais.