O presidente lançou, na reunião de coordenação do PT, uma meta que reformula o foco da campanha para as próximas três semanas: recuperar aproximadamente 30 milhões de eleitores que não foram às urnas no primeiro turno. Ao fixar esse alvo e estipular prazo de 20 dias, Lula pediu menos ênfase na denúncia dos erros dos adversários e mais autocrítica e correção rápida das falhas da própria campanha. A opção por mirar os abstensos traduz uma leitura clara do quadro: o problema, na visão da campanha, não foi necessariamente a emergência de alternativa política consolidada, mas a baixa participação de um segmento numeroso do eleitorado.
Politicamente, a orientação acende um sinal de alerta. Admitir a necessidade de recuperar tantos eleitores é também um reconhecimento tácito de limitação de capilaridade e de eficácia de mensagem no primeiro turno — e, por consequência, amplia a pressão sobre coordenação, candidatos e aliados para mostrar resultado imediato. Estratégias de convencer abstencionistas exigem logística de base, operação de rua e comunicação direcionada, ações que demandam recursos e coordenação em tempo curto. Além disso, a ênfase em mobilizar quem não foi votar pode indicar um movimento defensivo: priorizar a ativação de apoiadores potencialmente móveis em vez de disputar eleitores firmes de adversários.
Há também um risco estratégico de repercussão pública. Apelar para recuperar os não votantes permite uma narrativa de inclusão e responsabilização da campanha, mas pode ser usada pela oposição para enfatizar falta de entusiasmo e fragilidade eleitoral do governo. A retórica escolhida pelo presidente — ao sugerir que é preciso 'desnudar' as bases da candidatura adversária — tende a polarizar ainda mais o debate e pode energizar a base, porém corre o risco de afugentar eleitores moderados cujo retorno à urna é central para uma vitória confortável.
A referência histórica feita por Lula à virada que viveu em 1989, quando subiu de patamares baixos para o segundo turno, serve como argumento de otimismo, mas as circunstâncias mudaram: o calendário apertado e a fragmentação de canais de comunicação hoje tornam a operação mais custosa e sujeita a erros. Se a campanha não converter uma parcela significativa desses 30 milhões, o resultado poderá permanecer apertado, elevando a imprevisibilidade política e cobrando preço em termos de narrativa de governabilidade. Em resumo: a escolha por mirar a abstenção é coerente com um diagnóstico de baixa participação, mas transforma a reta final numa corrida contra o relógio — e expõe a coordenação a cobranças por eficácia imediata.