Na abertura do pavilhão do Brasil na Hannover Messe 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva projetou uma ambição clara: transformar a vantagem renovável do país em protagonismo industrial. Diante de autoridades brasileiras e alemãs, ele afirmou que o Brasil “cansou de ser tratado como um país pobre” e defendeu a capacidade nacional de competir em alto nível, apoiada em base tecnológica, industrial e capital humano.
O discurso enfatizou dados recorrentes do governo: cerca de 90% da matriz elétrica proveniente de fontes renováveis e avanços nos biocombustíveis — com mistura de 30% de etanol na gasolina e 15% de biodiesel no diesel. Lula sugeriu ainda a comparação internacional das emissões de combustíveis para mostrar a vantagem ambiental do modelo brasileiro, uma estratégia retórica para agregar valor às exportações e atrair parceiros industriais interessados em cadeias de baixo carbono.
A participação do Brasil como país parceiro oficial — posição que o país não ocupava havia 46 anos — e a presença de mais de 300 empresas coordenadas pela ApexBrasil são oportunidades evidentes de atração de investimentos e de cooperação tecnológica com universidades e centros de pesquisa alemães. Mas a retórica precisa encontrar medidas práticas: converter fontes renováveis em produtos industrializados de maior valor agregado exige investimentos, ambiente regulatório estável e integração entre inovação e produção em larga escala.
Politicamente, o evento é parte de uma estratégia de imagem externa que visa reforçar a narrativa de modernização e crescimento sustentável. O gesto diplomático e econômico pode abrir portas, mas também cria expectativa que cobrará resultados concretos em casa. Se as promessas não se traduzirem em projetos e investimentos palpáveis, a fala em Hannover tende a virar argumento de oposição sobre eficácia e capacidade de execução do governo.