O primeiro de Maio deste ano terá formato pulverizado: as principais centrais sindicais decidiram não organizar o ato unificado em São Paulo e promoverão manifestações locais em diferentes regiões. A estratégia decorre, segundo dirigentes, da tentativa de ampliar a presença junto às bases, mas também carrega o efeito prático de reduzir o espetáculo político que costumeiramente serve de vitrine para governos e partidos.
A mudança ocorre no rastro da mobilização fraca observada em 2024, quando o evento em Itaquera foi esvaziado e o próprio presidente Lula optou por se ausentar das celebrações no ano seguinte, após críticas públicas à baixa adesão. Em março, CUT, Força Sindical, CSB, UGT, CTB, Nova Central e Intersindical acataram a orientação de descentralizar atos e concentrar esforços na Marcha dos Trabalhadores realizada em Brasília, no dia 15 de abril, ocasião em que entregaram 68 reivindicações ao Planalto. A principal demanda é a aprovação do fim da escala 6x1.
No plano da comunicação, o governo não quer o risco de um novo constrangimento público: Lula deve privilegiar o pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão para detalhar pontos do Desenrola 2, programa de renegociação de dívidas que prevê juros menores e descontos de até 90% para famílias com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105). O Palácio estuda um evento para oficializar o pacote, sem data confirmada. A combinação entre anúncio técnico e ausência física nos atos tem objetivo claro: transformar medida social em instrumento de recuperação de popularidade sem expor o presidente a imagens de baixa adesão.
Politicamente, a descentralização dos atos tem consequências claras. Sem um grande encontro em São Paulo, o governo perde uma oportunidade de demonstrar força de rua e de pressionar adversários e o Legislativo. A pauta do 6x1, além de sensível ao eleitorado, enfrenta entraves: embora o Planalto tenha enviado projeto em regime de urgência, o presidente da Câmara, Hugo Motta, optou por dar início a PECs que alongam o processo legislativo. Em ano eleitoral, a necessidade de recuperar tração empurra o governo a apostar em medidas econômicas de impacto imediato, mas a eficácia desse remédio depende tanto da execução quanto da capacidade de manter a base sindical mobilizada — algo que a decisão de descentralizar torna mais difícil e que pode ampliar desgaste político se não se traduzir em ganhos palpáveis.