O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, publicaram carta conjunta durante a cúpula do G7 em Évian-les-Bains para cobrar dos principais blocos e governos — G7, G20, Brics e demais atores envolvidos — a conclusão do acordo internacional sobre pandemias. No documento, assinam apelo à urgência das negociações, com foco na conclusão do anexo sobre o mecanismo de Acesso a Patógenos e Repartição de Benefícios (PABS), apontado como condição para que o acordo entre em vigor.
A peça central do impasse é prática: regras que tornem viável o compartilhamento rápido de amostras biológicas e dados genéticos e, em contrapartida, garantam acesso mais justo a vacinas, medicamentos e testes desenvolvidos a partir dessas informações. Lula e Tedros lembram as consequências da covid-19 — com estimativas que elevam o balanço de vidas perdidas e mostram desigualdade no acesso às ferramentas de saúde — e sustentam que sem equidade o mundo continuará vulnerável a novas ondas sanitárias.
Politicamente, a carta coloca pressão direta sobre governantes e delegações técnicas: os signatários pedem que o dia 17 de julho seja tratado como prazo final, não mera etapa, sinalizando que o conflito não pode ficar restrito a debates técnicos. A cobrança busca transformar a negociação em prioridade de Estado, exigindo respaldo político aos negociadores. Para o Brasil, a iniciativa reforça a narrativa de protagonismo em defesa da equidade na saúde global, mas também desloca responsabilidade aos parceiros que resistem a concessões sobre distribuição de benefícios.
O apelo evoca riscos que tendem a aumentar no futuro — mudanças climáticas, alteração do uso do solo e avanços biotecnológicos — e sugere que cada mês de atraso amplia a exposição global. Em termos práticos, a definição do PABS é apresentada como a última peça que resta para tornar operacional um instrumento que, segundo os autores, foi prometido após a lição da covid-19. A próxima rodada de negociações terá, assim, peso político e diplomático incomum: ou se firma um compromisso de equidade ou se preservam as condições que alimentaram a desigualdade na última pandemia.