Aos 80 anos e com três mandatos no currículo — dois entre 2003 e 2010 e o atual — Luiz Inácio Lula da Silva concorre a mais quatro anos no Planalto. A campanha petista montou uma narrativa centrada na defesa da soberania nacional, ligando medidas econômicas recentes a uma estratégia de valor agregado das exportações e proteção de ativos considerados estratégicos.
No núcleo do projeto está a lei dos minerais críticos, sancionada em setembro, que prevê até R$ 7 bilhões em investimentos no processamento local e cria um fundo garantidor de R$ 2 bilhões. O propósito declarado é mudar a pauta de exportação de commodities para produtos com maior valor agregado — um discurso com apelo político claro junto ao eleitor preocupado com indústria e empregos, e que também busca neutralizar críticas do setor produtivo sobre o pragmatismo do governo.
Na arena simbólica e legislativa, o presidente também apostou no combate às apostas on-line. A medida provisória assinada em 25 de setembro proíbe novos depósitos nas chamadas bets e fixou prazo para saques até 5 de outubro. A iniciativa tem potencial eleitoral, exibindo firmeza regulatória, mas abre espaço para batalhas jurídicas e políticas: o setor econômico e parte do mercado digital podem reagir, criando pressão sobre aliados liberais e exigindo respostas sobre efeitos econômicos e alcance da medida.
Politicamente, Lula aparece cercado por uma coligação ampla — PT, PSB, PSol, Rede, PDT, PV e PCdoB — e tem Geraldo Alckmin (PSB) como vice, sinal que busca interlocução com o centro e com o setor produtivo. O adversário do campo da direita mais explícita na disputa é Flávio Bolsonaro (PL). No Congresso, o cronograma também favorece a agenda do Executivo: a PEC que prevê o fim da escala 6x1 deve ir ao Senado logo após o primeiro turno, enquanto a PEC da Segurança Pública figura entre prioridades para mostrar compromisso com a integração das polícias.
Do ponto de vista eleitoral, a operação tem dois desafios claros: transformar temas técnicos em ganhos de opinião pública e administrar o desgaste político que medidas intervencionistas podem gerar em setores econômicos poderosos. Se vitorioso, o projeto de um eventual quarto mandato dependerá não só do apelo nacionalista, mas da capacidade de converter legislação e recursos em resultados tangíveis — emprego industrial, investimentos privados e estabilidade institucional — antes que a disputa avance para fases decisivas.