O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou que irá a Evian, na França, para participar como convidado da cúpula do G7 (15 a 17 deste mês) e pretende aproveitar a viagem para buscar um encontro com o presidente norte-americano, Donald Trump. A urgência do contato decorre da ameaça de sobretaxas sobre produtos brasileiros — citada em diferentes versões, inclusive a possibilidade de alíquota de 25% — e da recomendação recente do Representante Comercial dos EUA (USTR) de aplicar uma sobretaxa de 12,5% a Brasil e outros 59 países por supostas falhas no combate ao trabalho forçado.
No pronunciamento a ministros no Planalto, Lula elevou o tom: afirmou que vai ao G7 para "colocar ordem na casa" diante do que chamou de desmonte do multilateralismo e da democracia. O presidente disse ter sido surpreendido pela decisão americana, apesar de ter apostado em diálogo e cooperação depois do encontro em Washington, onde entregou documentos com propostas bilaterais. Criticou também o senador Marco Rubio e orientou a equipe a não ceder, lembrando que o Brasil pode procurar outros parceiros caso os EUA mantenham medidas punitivas.
Além do gesto diplomático, a passagem de Lula pelo G7 tem efeito político doméstico imediato. A tentativa de negociação direta com Trump busca reduzir o risco de impacto econômico direto sobre exportadores brasileiros e limitar desgaste político do governo, que passa a ser cobrado pela defesa de interesses comerciais e pela capacidade de evitar represálias. Se as tarifas forem mantidas ou ampliadas, o custo será sentido na balança comercial e poderá alimentar críticas oposicionistas sobre a gestão da agenda externa, ao mesmo tempo em que força o Executivo a acelerar alternativas de mercado.
A aproximação com os parceiros do G7 será, portanto, um teste de habilidade política do governo: é preciso traduzir a retórica de soberania em resultados práticos sem exacerbar uma crise diplomática com o principal parceiro comercial. A perspectiva de negociar bilaterais num encontro multilaterial como o G7 também indica a escolha por uma disputa de arenas — buscar apoio político entre aliados para pressionar os EUA — o que pode funcionar como saída de curto prazo, mas não substitui medidas técnicas de defesa do comércio. Em resumo, o episódio acende um alerta sobre custo econômico e político da tensão com Washington e sobre a necessidade de estratégia concreta para proteger exportadores e a imagem internacional do país.