Na abertura da reunião ministerial no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a colocar no centro da agenda uma preocupação recorrente: o enfraquecimento do multilateralismo. Segundo relato da reunião, o chefe do Executivo defendeu que a solução passa por reforçar instituições como a ONU e por uma atuação diplomática mais ativa — razão pela qual decidiu aceitar participação no encontro do G7, possivelmente em 15 de junho. A postura busca retomar o tom de protagonismo internacional que marcou seus primeiros meses de mandato, mas agora esbarra num cenário internacional mais duro e menos disposto a concessões.
O pano de fundo é conhecido: a guerra na Ucrânia, a volta de uma retórica protecionista e nacionalista por parte dos EUA, a ascensão econômica e política da China, a postura russa como pólo de antagonismo e as dificuldades internas da União Europeia. Esses vetores reduzem o espaço de manobra do multilateralismo e incentivam governos a priorizar interesses domésticos. Nesse contexto, reclamar da desordem global é uma estratégia legítima de narrativa, mas tem pouco efeito prático se não vier acompanhada de iniciativas capazes de mitigar riscos concretos para a economia brasileira.
O nó político para o governo é exatamente esse: a retórica de soberania e defesa da ordem multilateral funciona em nível diplomático, mas terá peso eleitoral e material apenas se traduzida em medidas que protejam exportações e cadeias produtivas brasileiras diante de medidas tarifárias e barreiras comerciais. A sinalização de preocupação com o desmonte de instituições internacionais acende um alerta para aliados e concorrentes, mas não elimina o risco de medidas unilaterais que afetem setores sensíveis. Nesse sentido, a eficácia da estratégia externa será medida pelo portfólio de ações — acordos comerciais, diplomacia econômica ativa, mecanismos de pressão multilateral — que o governo apresentar nas próximas semanas.
Do ponto de vista político interno, a insistência no tema pode tanto ampliar o capital diplomático do governo quanto expor uma contradição: prometer um novo arranjo global quando as grandes potências reforçam o nacionalismo pode soar distante do cotidiano do eleitor, que olha para emprego, preços e exportações. Se a narrativa não vier acompanhada de resultados tangíveis, o discurso corre o risco de virar pretexto para críticas sobre eficácia administrativa. A agenda agora exige pragmatismo: usar fóruns como o G7 para obtenção de resultados imediatos e, paralelamente, organizar uma estratégia doméstica de resposta às pressões comerciais — só assim a defesa do multilateralismo deixará de ser apenas retórica e ganhará substância política.