Em agenda na Europa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou discursos na Alemanha e na Espanha para enviar recados indiretos ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e projetar uma narrativa internacional contrária ao recurso à força. Em Hannover, na abertura da feira industrial, Lula qualificou de “maluquice” o conflito que envolve EUA, Israel e Irã e afirmou que o mundo não pode ser guiado por mensagens nas redes sociais, numa referência às postagens de líderes como Trump.

O presidente também buscou vincular a crítica ao conflito com posições práticas do governo: disse que o Brasil está menos exposto ao choque do preço do petróleo porque adotou medidas como subsídios e isenções tributárias para combustíveis — citou diesel, biodiesel, GLP e querosene de aviação — e ressaltou que o país importa cerca de 30% do seu óleo diesel. No mesmo tom, condenou a omissão do Conselho de Segurança da ONU e citou o gasto global com guerras, estimado em US$ 2,7 trilhões, para pedir realocação de recursos em favor de refugiados e combate à fome.

Os discursos têm efeito político claro: consolidam a imagem do presidente como ator global que defende multilateralismo e solidariedade humanitária, e dão tom moral à sua agenda externa. Ao mesmo tempo, abrem espaço para críticas técnicas e políticas: ao criticar o gasto militar mundial, o governo precisa justificar o custo fiscal das medidas internas que blindaram o país contra a alta do petróleo. A contradição entre o discurso contra gastos bélicos e a ampliação de subsídios energéticos tende a ser explorada por adversários em debates sobre responsabilidade fiscal.

Ao defender a imigração — recordando a contribuição de portugueses, africanos, europeus, japoneses e árabes na formação do país — Lula reforçou a dimensão humanitária de sua postura e buscou diferenciar o Brasil de países que endurecem fronteiras. Resta aos próximos movimentos do Palácio do Planalto traduzir essas posições em prática diplomática sem ampliar a pressão sobre as contas públicas, e calibrar relações bilaterais com Washington numa janela em que críticas públicas a líderes estrangeiros podem ter custo político e diplomático.