Na solenidade em que sancionou a lei que cria o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva atribuiu ao ex-chefe do Planalto responsabilidade política pela condução da pandemia. Ao defender a necessidade de identificar responsáveis, Lula disse que lembrar as vítimas passa por registrar quem tomou decisões públicas durante a crise sanitária. O projeto que institui 12 de março partiu do líder do PT na Câmara, Pedro Uczai, e a cerimônia teve a presença do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e representantes de entidades de saúde.
O presidente reafirmou que, embora tenha evitado acusações pessoais no passado, exigia que a gestão federal escutasse especialistas. Lula criticou ministros e profissionais que, à época, promoveram medidas sem respaldo científico e citou a circulação de mensagens que desqualificaram vacinas ou as apresentaram como risco para crianças — argumentos que, segundo ele, contribuíram para confusão e adiamento de ações de saúde pública.
Os números oficiais reforçam o peso político do discurso: desde março de 2020 o país registrou mais de 716 mil mortes por covid-19, com o ápice em 2021, quando ocorreram mais de 424 mil óbitos. A queda dos óbitos acompanhou a vacinação: em 2022 foram cerca de 74 mil mortes, 14 mil em 2023 e 5 mil em 2024. Ao colocar a questão da responsabilização no centro da cerimônia, o governo busca ancorar a memória pública na gestão da crise e diferenciar sua narrativa em relação ao período anterior.
A sanção funciona, portanto, tanto como ato de reconhecimento às vítimas quanto como gesto político. Ao pedir que se deem nomes aos responsáveis, Lula intensifica o debate público sobre escolhas e omissões na pandemia, um movimento que tende a reapertar a disputa política e a manter a questão da responsabilização na agenda institucional e eleitoral.