Em confronto direto na noite de 23 de outubro, durante debate promovido pela TV Globo, Luiz Inácio Lula da Silva reaplicou a expressão 'beijinho, beijinho, tchau, tchau' para responder a ataques de Flávio Bolsonaro. A fala foi usada como reação a ofensas anteriores — o senador chamou Lula de 'mentiroso' e comparou seu nariz ao de Pinóquio — e teve papel imediato de enquadramento: transformar a agressão do adversário em oportunidade para questionar a sinceridade de promessas de campanha.

A referência remete ao histórico discurso de 1989, quando Lula usou a mesma imagem para criticar Fernando Collor, e foi recuperada outras vezes ao longo da carreira do petista. A expressão, originária de uma canção popularizada na televisão, condensa a acusação de que políticos exibem afeto e promessas antes do voto e depois abandonam o eleitor. No debate, o presidente ancorou a crítica em propostas de austeridade e no argumento de distanciamento de elites políticas em relação aos pobres — questões centrais no xadrez eleitoral do segundo turno.

Politicamente, a reaparição do bordão tem dupla função: reforçar uma narrativa conhecida que conecta memórias eleitorais a uma crítica atual e neutralizar a ofensiva pessoal de Flávio ao transformar seu ataque em cena para uma acusação mais ampla de descompromisso. A estratégia pode ampliar desgaste sobre o adversário entre eleitores mais sensíveis a demonstrações de empatia, mas também corre o risco de soar repetitiva se percebida como artifício retórico permanente.

No aspecto prático, a troca de provocações destaca como símbolos e referências culturais continuam a moldar a pauta do segundo turno — muito além de propostas concretas. Para Flávio Bolsonaro, a eficácia do contra-ataque dependerá da capacidade de retomar o debate sobre conteúdo e de desconstruir a imagem de insinceridade associada à sua candidatura. Para Lula, a repetição do recurso retórico funciona como lembrete de que, nesta fase, vencer a disputa pela percepção pública pode ser tão decisivo quanto ganhar argumentos técnicos.