O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, a 17 dias do primeiro turno, o primeiro reajuste do Bolsa Família em quatro anos: 15% que elevam o piso de R$ 600 para R$ 691 e a média do benefício de R$ 675 para R$ 777. O governo justifica a medida como recomposição da inflação acumulada desde 2023. Os novos valores começam a ser pagos em 19 de outubro — um calendário que inevitavelmente confere à iniciativa um recorte político por ocorrer tão próximo do período eleitoral.

A medida integra um pacote de ações com impacto direto no bolso do eleitor: expansão do Gás do Povo — que, segundo o governo, aumentou o número de famílias atendidas de 4,5 milhões para 15 milhões em 2026 —, ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e programas de renegociação de dívidas. Para o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, o anúncio não é neutro: trata‑se de uma iniciativa econômica lançada de olho no efeito eleitoral. A avaliação se ancora na proximidade com a eleição e na história recente de uso de benefícios como instrumento de campanha.

A comparação com 2022 é inevitável. Naquele ano, o então presidente aprovou, via alteração constitucional conhecida como PEC Kamikaze, aumentos mais agressivos aos benefícios — entre eles o Auxílio Brasil, que subiu de R$ 400 para R$ 600 — e medidas que o Supremo considerou depois inconstitucionais. A diferença técnica apontada por especialistas é que o reajuste atual está amparado pela legislação do Bolsa Família, que permite correção pela inflação, enquanto a manobra de 2022 buscou exceção constitucional para ampliar gastos em ano eleitoral. Mesmo assim, a operação de comunicação do governo reflete um voluntarismo político discreto: repor perdas é juridicamente plausível, mas o momento eleito deixa margem para interpretações sobre intenção eleitoral.

Politicamente, o movimento tem efeitos duplos. Para a base mais pobre — segmento em que pesquisas indicam preferência consolidada por Lula — o reajuste é reforço direto de renda. Para eleitores indecisos e críticos, entretanto, a manobra pode ser lida como sinal de desgaste ou ajuste de última hora na estratégia de campanha, o que complica a narrativa oficial de normalidade administrativa. Em Brasília, a decisão reacende debates sobre antecedência, custo fiscal e estratégia: independente da legalidade, o anúncio altera o tabuleiro da campanha e acende alerta sobre como benefícios sobrepostos serão percebidos pelo eleitorado nas próximas semanas.