No confronto com o candidato Flávio Bolsonaro durante o debate da TV Globo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva buscou deslocar a disputa para um terreno técnico: vinculou a taxa básica de juros, hoje em 13,75% ao ano, ao regime de independência do Banco Central. A estratégia foi clara: transformar o debate sobre o aumento da dívida pública em uma discussão sobre responsabilidade institucional e caminhos para reduzir o custo do endividamento.
Lula argumentou que juros elevados pressionam a relação dívida/PIB e defendeu crescimento como instrumento para reverter a trajetória da dívida — hoje em 82,9% do PIB em agosto de 2026, contra 73,1% no início de 2023. O presidente prometeu reduzir a dívida e elevar o PIB nos próximos anos, colocando o crescimento como alternativa ao que chamou de respostas fiscais austeras — os chamados 'tesouraço' ou cortes automáticos. Flávio Bolsonaro respondeu que a autonomia do BC foi criada justamente para evitar decisões eleitorais que reduzissem juros de forma artificial e disparassem a inflação.
O embate expõe um dilema político e técnico: a autonomia do BC é defensiva perante pressões fiscais de curto prazo, mas também complica o discurso governista quando a taxa de juros permanece elevada. Para o governo, o risco é ver os números da dívida usados como prova de erosão da capacidade de investimento; para a oposição, é argumento para cobrar maior responsabilidade fiscal. A troca de acusações revela ainda a disputa por sinais aos mercados e ao eleitorado sobre quem tem plano crível para controlar a trajetória da dívida sem sacrificar o crescimento.
Na prática, a declaração de Lula acende alerta sobre a necessidade de uma narrativa fiscal mais concreta: prometer crescimento é insuficiente sem metas claras de ajuste estrutural ou reformas que contenham o custo do serviço da dívida. A discussão sobre a independência do BC, retomada no debate, tende a ganhar centralidade na campanha — tanto por sua relevância econômica quanto pelo potencial de ampliar desgaste político caso as promessas de redução da dívida não se materializem.