O governo comemorou, com razão técnica, a redução histórica do desmatamento na Amazônia: o Inpe registrou queda de 61% em maio na comparação anual. Os números alimentaram uma reação imediata do Planalto, que passou a usar o resultado como instrumento de defesa contra a ameaça de uma tarifa de 25% proposta por autoridades dos Estados Unidos. No curto prazo, a estratégia é clara: transformar dados do Sistema Deter em argumento técnico para a audiência pública marcada para 6 de julho e, politicamente, buscar um desfecho durante a reunião do G7, onde o presidente planeja conversar com Donald Trump.

Do ponto de vista retórico e diplomático, o avanço ambiental é útil e necessário. O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, reforçou a confiabilidade das estatísticas do Inpe e a narrativa do governo tem respaldo também na presidência brasileira da COP30, em Belém, e no trabalho do embaixador André Corrêa do Lago. Esses elementos formam o arcabouço técnico que o Planalto pretende levar a interlocutores internacionais para evitar medidas punitivas ao comércio brasileiro — uma pressão que, se mantida, tem impacto direto sobre exportadores e a imagem do país no exterior.

Mas os ganhos verificados nas imagens de satélite e nas séries estatísticas convivem com um risco político doméstico que o governo não controla sozinho: o Congresso. No fim do mês passado a Câmara aprovou um conjunto de projetos que, na avaliação de críticos e de especialistas, flexibilizam normas ambientais — uma abertura legislativa que, como lembrado pela memória do eleitor, remete à expressão 'passar a boiada' usada durante o período anterior. É aí que está a maior trincheira contra a recuperação ambiental: mudanças legais podem anular, ao menos parcialmente, o efeito prático das ações de fiscalização e dos programas de restauração.

A disputa, portanto, se dá em dois planos. No internacional, os números do Inpe são moeda política e técnica para tentar evitar tarifas e recuperar prestígio ambiental. No interno, a convivência com um Legislativo mais permissivo pode diluir resultados e transformar a vitória estatística em fragilidade política. Para o presidente, isso significa que divulgar boas notícias não basta: é necessário convertê-las em políticas robustas, sustentadas por legislação, orçamento e fiscalização contínua — além de articulação política que contenha recuos no Congresso.

No tabuleiro eleitoral e institucional, a fotografia atual gera efeitos concretos. Para a oposição representada por figuras como Flávio Bolsonaro, será mais difícil justificar o período de enfraquecimento das políticas ambientais; para o governo, a tarefa é evitar que avanços técnicos se transformem em narrativa efêmera. Em suma: os dados do Inpe são um ativo importante, mas frágil. Sem respostas legislativas e articulação política firme, a defesa da Amazônia poderá ficar limitada a discurso e corretiva temporária, em vez de se consolidar como política de Estado.