A crise de credibilidade do Supremo Tribunal Federal entrou de vez na agenda dos presidenciáveis. Em reação ao desgaste da Corte, todos os cinco candidatos mais bem colocados nas pesquisas passaram a defender a fixação de mandatos para ministros — proposta que dialoga com a preferência popular: levantamento Quaest apontou que 68% dos entrevistados querem aumentar exigências para nomeações. No plano prático, as sugestões vão de conselhos para selecionar indicados a limites de tempo que variam conforme o autor do discurso.

Há diferenças concretas entre discurso e documento. Ao analisar planos de governo, o Correio encontrou propostas formais de reforma no Judiciário principalmente em projetos assinados por Flávio Bolsonaro e Augusto Cury; outros candidatos têm defendido a ideia em entrevistas e eventos. Entre as medidas anunciadas publicamente aparecem mandato temporário, idade mínima, quarentena para indicados que foram ministros de Estado e restrições à atuação de escritórios ligados a familiares de magistrados. Parte dessas iniciativas exige mudança constitucional e aprovação do Congresso, o que antecipa disputa política intensa.

O sinal político é claro: o tema acende alerta e amplia desgaste para o Judiciário, mas também complica a narrativa oficial de quem ocupa o Planalto. A existência de ao menos uma vaga aberta no Supremo — a deixada pelo ex-ministro Luís Roberto Barroso — e previsões de novas aposentadorias elevam o impacto imediato das propostas. Mudanças na forma de indicação transfeririam poder do presidente para fóruns colegiados ou para o Senado, o que terá custo político para ocupantes do Executivo e exigirá costura parlamentar de larga escala.

No curto prazo, a ofensiva tem dupla finalidade eleitoral: capitalizar a insatisfação pública e pressionar adversários sobre a agenda institucional. No médio prazo, porém, reformas mal desenhadas podem politizar decisões judiciais e gerar mais conflito entre Poderes. A disputa que se anuncia não é apenas técnica — é uma peça central da campanha, que vai testar a capacidade de convergência no Congresso e a resistência das instituições diante de mudanças que prometem mexer no equilíbrio entre governabilidade e independência judicial.