Em ato realizado em Brasília, a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) lançou o Manifesto Político das Mulheres Negras: o Pacto do Bem Viver, documento que reúne diretrizes para as eleições de 2026. O texto coloca a proposta do Bem Viver — com ênfase em justiça, equidade e vida digna — como eixo para orientar políticas públicas e a atuação de candidatas e governantes. O tom é de mobilização: a articulação quer transformar demandas históricas em plataforma política e instrumentos de cobrança.

Além de reivindicar reparação e medidas contra o racismo e o sexismo que marcam a vida pública, o manifesto reivindica que mulheres pretas e pardas deixem de ser apenas beneficiárias de políticas e passem a ocupar espaços de decisão. Em Brasília, as representantes criticaram a desvalorização nas estruturas partidárias e a insuficiente destinação de recursos do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), apontando que a paridade formal sem meios materiais se revela simbólica.

Os dados expostos pela articulação reforçam a preocupação: segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), entre 20.560 candidaturas registradas para estas Eleições Gerais, 1.234 são de mulheres pretas (6%) e 2.485 de mulheres pardas (12,2%). O contraste com a composição demográfica é evidente: a Pnad Contínua/IBGE de 2021 aponta que 28,2% da população — cerca de 58 milhões de pessoas — são mulheres negras. Essa discrepância traduz não só sub-representação, mas risco de desperdício político: uma parcela decisiva do eleitorado corre o risco de ver suas demandas marginalizadas.

Para além do apelo moral, o manifesto funciona como instrumento de pressão política: exige plataformas programáticas, mais candidaturas e mecanismos de accountability para que promessas se convertam em políticas e orçamento. O movimento também lançou a campanha #EuVotoEmNegra, com objetivo claro de transformar presença eleitoral em poder institucional. Para partidos e candidatos, o recado é direto: ignorar a pauta pode sair caro nas urnas; reconhecer e financiar a representação passa a ser imperativo estratégico, não apenas discurso de ocasião.