Um manifesto de voo obtido pelo Correio registra o senador Flávio Bolsonaro entre os ocupantes de uma aeronave particular que partiu de San Fernando (Buenos Aires) em 27 de outubro. No campo reservado à nacionalidade, o nome do parlamentar aparece acompanhado da sigla 'ITA', indicando cidadania italiana. O documento relaciona também a esposa, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e as duas filhas do casal — ambas identificadas como brasileiras — e traz carimbos das autoridades aeroportuárias argentinas datados de 27 e 28 de outubro. A aeronave, de prefixo LV-IOW, pertence à empresa Baires Fly S.A. e tinha como destino Segu, no Uruguai.
O registro reforça reportagens e declarações internas do PL segundo as quais Flávio teria recorrido à dupla cidadania na sequência da derrota no segundo turno. A coincidência temporal entre o resultado eleitoral e o embarque alimenta a leitura de aliados e adversários de que a saída teve motivação ligada à possibilidade de medidas judiciais futuras. No plano político, o episódio acende alerta: se confirmado como evasão preventiva, amplia desgaste do núcleo bolsonarista, complica a narrativa de normalidade após a derrota e aumenta a cobrança por esclarecimentos públicos do senador e do partido.
Há implicações institucionais e práticas que transcendem a dimensão simbólica. O uso de passaporte estrangeiro em deslocamento internacional pode dificultar o rastreamento por autoridades brasileiras, especialmente quando a saída ocorre a partir de fronteira ou país terceiro. O documento presente no manifesto não prova ilegalidade por si só, mas oferece elemento material que pode justificar pedidos formais de informações a migrações, companhias aéreas e ao próprio parlamentar. Também tende a reacender debates sobre blindagem jurisdicional e sobre a capacidade de medidas cautelares determinadas pelo Supremo Tribunal Federal de alcançar investigados no exterior.
Do ponto de vista eleitoral e estratégico, o episódio coloca o PL em situação delicada: além da necessidade de explicar a sequência de fatos, o partido terá de administrar o efeito político dessa imagem de saída apressada. Para a oposição e para parte da opinião pública, a leitura será a de tentativa de esquiva; para aliados, a prioridade será minimizar consequências jurídicas e de imagem. A matéria do Correio cria, portanto, um problema concreto que exige respostas documentadas e transparentes — sem as quais o episódio tende a ampliar a pressão sobre Flávio Bolsonaro e a ressaltar vulnerabilidades do grupo que ainda busca recompor-se após a campanha.