A XXVII Marcha dos Prefeitos começou em Brasília com clima expressamente adverso ao governo federal e potencial para se transformar em um grande palanque eleitoral para pré-candidatos de oposição. Figuras como Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) participam dos debates, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu cumprir agendas em São Paulo, em uma ausência que reforça a percepção de distância entre o Palácio do Planalto e os gestores municipais. No congresso de abertura também estiveram os presidentes do Senado e da Câmara, Davi Alcolumbre e Hugo Motta.
O presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski, deixou claro o tom do encontro: reclamações contra medidas do Executivo que, segundo os prefeitos, representam impacto imediato nas contas locais. A entidade aponta 16 proposições em estágio avançado cujo efeito combinado pode chegar a R$ 295,3 bilhões. Entre as queixas, a demora no pagamento de emendas e a distribuição desigual dos repasses voltaram a ser temas centrais nas conversas entre gestores.
No centro do embate está a medida provisória que altera o cálculo do piso nacional do magistério: a proposta combina o INPC com 50% da média de crescimento real das receitas do Fundeb e tende a elevar o piso de R$ 4.867,77 para R$ 5.130,63 em 2026, caso aprovada. A CNM calcula impacto superior ao apresentado pelo governo — estima R$ 8 bilhões, e aponta que apenas neste ano o piso já pressiona R$ 8,5 bilhões do orçamento municipal — enquanto a previsão oficial fala em R$ 6,4 bilhões. A votação na comissão mista está marcada, e a MP precisa ser aprovada até 1º de junho.
Além do magistério, os prefeitos cobram respostas sobre a PEC que reduz jornada (o fim do regime 6 x 1) — avaliada pela CNM em R$ 48 bilhões de impacto — e os desafios colocados pela PEC da segurança pública, que pode transferir custos para os municípios. A entidade propõe um fundo de equalização com 3% das transferências voluntárias da União para compensar cidades com menor participação nos repasses. Politicamente, o encontro acentua a pressão sobre o governo: a combinação de reclamações fiscais, atrasos em pagamentos e espaço dado aos opositores cria um problema prático e eleitoral que o Planalto terá de enfrentar rapidamente.