A Marcha para Jesus, que atraiu milhares de fiéis às ruas de São Paulo no feriado de Corpus Christi, ganhou contornos de campanha. Pré-candidatos nacionais e locais usaram o palco do evento para discursos com tom eleitoral: Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Tarcísio de Freitas (Republicanos), Ronaldo Caiado (PSD) e outros políticos marcaram presença, transformando a marcha religiosa em arena de disputa narrativa para 2026.
A leitura política do ato ficou explícita. Flávio Bolsonaro atacou a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e evocou a mobilização religiosa como resposta ao que definiu como um ‘mal’ a ser afastado do governo, enquanto Caiado fez críticas diretas ao que chamou de falta de integridade e combate ao crime. A presença pública de nomes que disputam espaço no campo conservador reforça a tentativa de converter apoio religioso em capital político.
Do lado do governo, a estratégia foi outra: o advogado-geral da União, Jorge Messias, representou o presidente e buscou modular a participação oficial. Em conversa com o organizador do evento, o presidente justificou a ausência para não envolver religião em campanha eleitoral — um cuidado formal que, na prática, não impediu o uso político do ato por adversários. A escolha de mandar Messias, cujo nome já foi rejeitado pelo Senado, é também sinal de que o Planalto prefere presença controlada a exposição direta.
O episódio destaca dois riscos políticos claros. Primeiro, a crescente instrumentalização de eventos religiosos como palanques, que intensifica a polarização e pressiona o bloco governista a reagir sem dar margem a novas críticas. Segundo, a reaproximação pública entre Flávio e Tarcísio demonstra que alianças pragmáticas podem se recompor diante da disputa por votos — mesmo após episódios de desgaste, como as revelações sobre a negociação de R$ 134 milhões ligada ao filme Dark Horse. Para o eleitor, sobra o cenário: fé e política cada vez mais entrelaçadas, com custo para a neutralidade institucional e para a clareza das opções eleitorais.