Moradores do Complexo da Maré relatam prejuízo à rotina e dificuldade de acesso às urnas após mudanças nos locais de votação. Fotografado pelo dia a dia da comunidade, um morador disse ter pensado em desistir ao enfrentar filas gigantescas no novo endereço — resultado do deslocamento para outro bairro, com necessidade de transporte e espera superior a duas horas. Outra eleitora relatou que passou por tumulto e sol forte ao tentar votar em uma igreja que substituiu a escola habitual, sem infraestrutura de transporte nas imediações.
As alterações foram determinadas pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) com o objetivo declarado de afastar seções eleitorais de áreas consideradas de alto risco ou dominadas por organização criminosa. No estado, 72 locais tiveram o endereço alterado em 20 municípios e, especificamente na Maré, 41 seções da 161ª Zona Eleitoral foram transferidas, afetando 16.907 eleitores. No total, a medida alcançou cerca de 202 mil eleitores no Rio.
O impacto no comparecimento aparece nos números: a abstenção nas 41 seções da Maré que mudaram de endereço foi de 31,07%, acima da média nacional de 21,08%, segundo levantamento com base em Boletins de Urna. O estudo 'Como vota a Maré', da ONG Redes da Maré, alerta que os dados não comprovam causalidade direta — também houve aumento do eleitorado —, mas reforçam preocupação com as barreiras geradas pelos deslocamentos para fora do território. Enquanto isso, a Justiça Eleitoral lembra que o transporte público foi gratuito no dia da votação, e que o TRE ofereceu transporte especial para eleitores com mobilidade reduzida, serviço que, segundo o tribunal, não registrou procura.
A movimentação comunitária para esclarecer eleitores e informar sobre os novos endereços, com ONGs indo às ruas antes do pleito, expõe a tensão entre segurança e acesso ao voto. Politicamente, o episódio acende alerta: decisões de segurança que alteram logística eleitoral podem elevar custos de participação e afetar a representatividade em territórios vulneráveis. Há espaço para aperfeiçoar comunicação, ampliar logística de transporte e articular ações conjuntas entre TRE, prefeitura e organizações locais para reduzir barreiras — sobretudo com a votação para presidente em segundo turno ainda em disputa — e preservar a eficácia do direito ao sufrágio.