A professora e mestre em direito constitucional Mariana Madero avaliou como uma crise de legitimidade o atual momento do Supremo Tribunal Federal, destacando que, desta vez, o problema tem caráter sobretudo interno. Em entrevista ao CB. Poder, ela traçou um contraste com episódios anteriores em que a Corte se colocou diante de desafios externos: agora, segundo a especialista, há uma erosão da confiança que nasce no próprio funcionamento institucional e que exige respostas claras dos próprios magistrados.

Madero afirmou que a forma de nomeação e as vinculações políticas de origem continuam sendo tema sensível — e que, ao assumir uma cadeira no Supremo, o ministro precisa demonstrar distanciamento político e compromisso com comportamentos que sirvam de exemplo ao Judiciário. Nesse contexto, a constitucionalista defendeu a criação de um código de ética para magistrados da Corte. Para ela, normas formais poderiam ajudar a restabelecer parâmetros de conduta e a transmitir ao público a sensação de que o tribunal está voltando a operar dentro de padrões previsíveis e transparentes.

A interlocução entre STF e outros Poderes e o impacto dessa crise no ambiente eleitoral também mereceram atenção. Madero ressaltou que as informações divulgadas sobre o Judiciário têm repercussão política e podem ser apropriadas por candidatos ou atores políticos, o que coloca em risco a percepção de integridade do sistema eleitoral. Nesse ponto, ela citou a necessidade de que tanto o Supremo quanto o Tribunal Superior Eleitoral observem como dados e decisões são usados no debate público, para reduzir espaço a desinformação ou a instrumentalização política de temas judiciais.

Apesar do diagnóstico duro, a especialista manifestou alguma confiança em uma devolução de normalidade após medidas administrativas esperadas — em particular, o fim de sigilos que, segundo ela, pode ajudar a dissipar parte da tensão. O quadro, porém, tem implicações concretas: pressiona por regras de conduta, reabre o debate sobre o modelo de nomeações e amplia o custo político de manter interpretações institucionais opacas. Para além das boas intenções, resta aos ministros e às cortes superiores a tarefa de traduzir recomendações em práticas que recolocam a legitimidade no centro da atuação pública.