O que se vê no centro político, às vésperas da votação, é um deslocamento motivado por aversão ao risco. Não é atração por programas ou afinidade com candidatos; trata-se de evitar o mal maior percebido por parcelas relevantes do eleitorado. Liberais que rejeitam o governo Lula migram para sua aliança por temor de uma volta mais intensa da extrema-direita; por outro lado, conservadores que até então mantinham distância do bolsonarismo ensaiam o chamado voto útil em Flávio Bolsonaro para impedir a reeleição do petista. Em ambos os casos, a direção do movimento é guiada pelo medo, não pela esperança.
O governo Lula aposta na chamada "economia do afeto": recuperação do poder de compra e ampliação de programas sociais. O reajuste do Bolsa Família — do piso R$ 600 para R$ 691, com impacto estimado em R$ 5,8 bilhões neste ano — tornou-se o símbolo mais visível dessa estratégia de revalorização do gasto social. O ministro do Planejamento nega motivação eleitoral, mas, tão próximo da eleição, o caráter político da medida é inevitável: um gesto com efeito imediato sobre a renda que tende a ser lido como movimentação de campanha.
Do outro lado, a campanha de Flávio Bolsonaro aposta na crise do Supremo Tribunal Federal. Ao afirmar que "quem está votando em Lula está votando em Alexandre de Moraes", o candidato transforma o desgaste da Corte em arma política, associando o adversário a uma suposta captura do Judiciário. A pesquisa Atlas/Bloomberg mostra que essa crise pesa mais sobre Lula: para 49,5% dos entrevistados, o episódio prejudica principalmente sua candidatura, o que explica a insistência de Flávio nessa linha de ataque.
A tentativa do Supremo de resolver a questão envolvendo Alexandre de Moraes terminou sem veredicto, com um julgamento interrompido e pedido de vista do ministro Flávio Dino. O episódio expôs fissuras internas, medo de decisões unilaterais e dificuldade de conciliação de procedimentos — fatores que elevam o tribunal à condição de protagonista das disputas eleitorais. Quanto mais o STF se mostra dividido, mais ganha terreno o argumento de que a disputa não é apenas política, mas institucional, o que complica ainda mais a escolha do eleitor de centro.
No vácuo criado pela polarização e pela crise judicial, grupos que buscavam romper com extremos agora priorizam qual risco evitar. A decisão de figuras como o sociólogo Zeca Martins — que anunciou voto em Lula apesar das reservas sobre o governo — ilustra essa lógica: conservar o centro unido virou questão de prevenção, não de promoção de um projeto. Esse movimento acende alerta para o equilíbrio político pós-eleição: acomodar o medo como principal motor de coalizões tende a fragilizar governabilidade e aprofundar a volatilidade institucional.