O envio de um ofício de André Mendonça ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, acrescentou mais tensão à disputa entre ministros e reacendeu o debate sobre limites do uso de inteligência policial em processos internos da Corte. No documento, Mendonça acusa Alexandre de Moraes de apresentar alegações falsas e de distorcer o conteúdo de um relatório da Polícia Federal, além de afirmar que a conduta do colega visa deslegitimar as equipes que atuam na Operação Compliance Zero.
Segundo o ministro que assina o ofício, as conclusões imputadas a ele teriam origem em um relatório de inteligência da PF, tipo de insumo que, na visão do signatário, não pode ser tratado como prova decisiva contra um membro do tribunal. Do outro lado, Moraes já formula acusações graves: ele aponta indícios que embasam pedidos que mencionam improbidade administrativa, crime de responsabilidade e favorecimento a um grupo político, conforme consta nos autos que circulam no STF.
A controvérsia ganha dimensão institucional porque o plenário do Supremo ainda não julgou se as apurações sobre os dois ministros serão tratadas de forma conjunta ou separada. A sessão foi suspensa após pedido de vista do ministro Flávio Dino, o que adia uma definição que tem potencial para alterar o mapa de alianças internas e a estratégia de defesa de cada acusado. A tramitação do caso, portanto, passa a somar desgaste público e pressão sobre a presidência do tribunal para administrar o litígio sem escalá‑lo a uma crise mais ampla.
Do ponto de vista político, a troca de ofícios e acusações públicas expõe contradições e amplia o desgaste do STF perante a opinião pública, sobretudo quando envolve alegações sobre o uso de relatórios de inteligência. Há risco concreto de que a disputa desvie atenção de temas institucionais relevantes e gere narrativas que enfraqueçam a confiança nas investigações — seja pela percepção de que provas foram mal utilizadas, seja pela imagem de uma Corte visivelmente dividida.
A continuidade do impasse no plenário e a expectativa sobre o pedido de vista determinam os próximos capítulos. Para Mendonça, a prioridade é mostrar que o documento da Polícia Federal não pode servir como fundamento isolado para as acusações que enfrenta. Para Moraes, as imputações reforçam a necessidade de apuração. Em um cenário político já sensível, a forma como Fachin e os demais ministros conduzirão o processo será decisiva para reduzir ou aprofundar a crise institucional.