O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça retirou o sigilo da decisão que em 17 de junho autorizou medidas de investigação contra o senador Jaques Wagner no bojo da Operação Compliance Zero. O documento divulgado pela Corte reproduz os elementos apresentados pela Polícia Federal que embasaram o pedido de monitoramento de dados telefônicos e de localização do parlamentar e de outros investigados. Mendonça deixou claro, no teor da decisão, que as medidas visam confirmar ou afastar vínculos e não representam comprovação de culpa.
A peça da PF listada pela decisão associa Wagner a supostas vantagens econômicas vinculadas a gestores do antigo Banco Master: uso de aeronaves, ingressos para shows caros e a aquisição de um apartamento no empreendimento Poème Horto, em Salvador, avaliado em cerca de R$ 2,45 milhões. Também são citadas planilhas do aparelho de Daniel Lopes Monteiro — operador jurídico-financeiro do banco — que registrariam pagamentos superiores a R$ 2,34 milhões a um favorecido identificado como “Dudu”, apelido apontado pela investigação como correspondente a Eduardo Mendonça Sodré Martins, enteado do senador.
O documento ainda menciona repasses à BN Financeira, ligada ao núcleo familiar de Wagner, e uma transferência de R$ 3,5 milhões em outubro de 2025 feita pela PKL One Participações S.A., associada a Augusto Ferreira Lima, figura que a PF descreve como de contato próximo ao senador. Além das supostas vantagens, a investigação verifica se houve atuação parlamentar do senador em temas que interessavam ao Banco Master — como emenda na MP 1.106/2022 que elevou o limite para empréstimos consignados e interlocuções sobre a PEC 65/2023, o FGC, e a possível venda do banco ao BRB.
Mendonça autorizou acesso a registros de chamadas, SMS, conexões de internet, dados de localização e acompanhamento em tempo real por dez dias, sem permitir acesso ao conteúdo das comunicações. A divulgação da decisão amplia o escrutínio público e político sobre Wagner e suas relações com o grupo financeiro, criando custo reputacional imediato e pressão por esclarecimentos. Do ponto de vista institucional, o gesto do ministro equilibra transparência e preservação da investigação, mas também transfere para o desgaste político as perguntas que agora cabem ao senador e à PF responderem.