Em discurso no V Seminário da Associação Nacional dos Magistrados Evangélicos (Anamel), realizado em São Paulo em 21 de agosto, o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça disse que os primeiros anos no cargo foram marcados por “infelicidade”. Segundo ele, a função traz “muito mais o ônus e a responsabilidade do que qualquer coisa”; a esposa do ministro estava presente e foi citada ao falar das limitações pessoais e pressões vividas.

Mendonça afirmou ainda que já conversou com colegas e que a percepção é compartilhada por outros integrantes do Judiciário: “Não somos diferentes, não deixamos de ser humanos e temos, muitas das vezes, uma sobrecarga sobre-humana”. No mesmo evento, disse que um ministro ou juiz não deve ter a pretensão de ficar rico com o cargo, definindo a condição dos magistrados como uma “classe B”: privilegiada, mas com preocupação para fechar as contas no fim do mês.

As declarações humanizam a experiência pessoal de quem ocupa a mais alta Corte, mas também sinalizam desgaste institucional. Ao admitir que há sobrecarga e limitações, o ministro levanta temas sensíveis para o próprio funcionamento do STF — como pressão de trabalho, visibilidade pública e expectativa em torno das decisões judiciais — sem apontar soluções concretas durante o evento.

O contexto pessoal e profissional do ministro completa o quadro: indicado ao STF pelo então presidente Jair Bolsonaro em julho de 2021, Mendonça já afirmara na sabatina que a laicidade do Estado e a Constituição seriam seus guias — “na vida, a Bíblia; no Supremo, a Constituição.” A fala em São Paulo devolve à agenda pública a discussão sobre condições e custos humanos do exercício da magistratura, em uma Corte sob olhar permanente da sociedade e da política.