A chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Assunção para a cúpula do Mercosul ocorre em um ambiente político desfavorável ao Brasil: entre integrantes e países associados do bloco, prevalecem governos de orientação conservadora. No horizonte imediato, a presidência rotativa do Mercosul passa do paraguaio Santiago Peña para o uruguaio Yamandú Orsi, mas a maioria das capitais vizinhas apresenta prioridades e alinhamentos distintos dos defendidos por Brasília. Esse quadro aperta o espaço diplomático do governo brasileiro e exige costura fina para evitar isolamento em temas sensíveis.
Do ponto de vista prático, a agenda brasileira encontrará dois vetores conflitantes. De um lado, o tratado com a União Europeia, cuja aplicação provisória já começou, é tratado nos bastidores como um trunfo que pode reduzir o custo político de divergências ideológicas: interesses comerciais e ganhos econômicos tendem a suavizar atritos. De outro, o alinhamento de países recentes e potenciais associados — incluindo Peru, Colômbia, Chile, Equador e a eventual inclusão da Bolívia — com a Casa Branca ou com posições mais duras sobre temas regionais complica consensos e pode restringir iniciativas lideradas por Brasília.
A incerteza sobre a formalização da associação de Peru e Colômbia ao bloco é um exemplo de risco imediato. Fontes do Itamaraty acompanham com atenção a postura desses governos, que mantêm relações próximas aos Estados Unidos e ainda não formalizaram a associação ao Mercosul. Além disso, episódios eleitorais e manifestações públicas de líderes, como a retórica de Javier Milei durante a campanha argentina sobre eventual saída do bloco — que dependeria do Congresso local, onde ele não tem maioria — mostram que bravatas políticas podem impor tensão institucional ao funcionamento do Mercosul.
A pauta de segurança reforça a complexidade do encontro. O combate ao crime organizado e às redes de tráfico aparece entre os temas centrais, mas as divergências sobre estratégias para enfrentar cartéis colombianos e facções brasileiras (PCC e CV) são profundas. A necessidade de cooperação operacional e de alinhamento jurídico entre os países do bloco esbarra em prioridades internas distintas, o que limita respostas regionais integradas e pode elevar custos políticos para governos que tenham de negociar concessões sensíveis em casa.
À sombra desses desafios, a crise humanitária na Venezuela — agravada por um terremoto que deixou centenas de mortos e dezenas de milhares desaparecidos — estará na agenda com apelos por assistência e preparação regional. A posição do Itamaraty, segundo interlocutores, é clara ao tratar o tema como urgente na vertente humanitária, ao mesmo tempo em que descarta, por ora, qualquer discussão sobre reintegração do país ao bloco após a ruptura da cláusula democrática. Para o governo, equilibrar solidariedade, princípios institucionais e interesses práticos será teste de capacidade diplomática.
No conjunto, a cúpula de Assunção acende um sinal para a gestão Lula: há espaço para promover a agenda econômica do Brasil no bloco, especialmente impulsionada pelo acordo com a UE, mas esse ganho não elimina o risco político. A predominância regional da direita reduz margem de manobra política e aumenta a necessidade de pragmatismo. Se a diplomacia brasileira não conseguir traduzir interesses comerciais em acordos operacionais sobre segurança e integração, a percepção de desgaste poderá crescer internamente — com custo político para o governo — e limitar a efetividade do Mercosul como instrumento de inserção externa do país.