Em Assunção, na XXVI Reunião de Ministras e Altas Autoridades da Mulher do Mercosul (RMAAM), a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, apresentou a proposta de criação de um pacto regional contra o feminicídio. A iniciativa, levada ao encontro a pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pretende estabelecer mecanismos de cooperação entre os membros plenos do bloco — Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia — para fortalecer políticas de prevenção, proteção às mulheres e acesso à Justiça.
O projeto se inspira no modelo brasileiro de articulação entre os Três Poderes e nas ações do Pacto Brasil contra o Feminicídio, cujo governo diz ter resultado em mais de 6,3 mil prisões de agressores e na aceleração da análise de medidas protetivas. No encontro, o Uruguai anunciou apoio e prometeu aprofundar as discussões durante sua presidência temporária do Mercosul, enquanto a Argentina informou que fará consultas internas antes de se posicionar.
Além do pacto, o Brasil levou à RMAAM medidas dirigidas ao combate da violência digital contra mulheres e propostas para regulamentação das plataformas digitais — temas que ampliam o escopo tradicional da agenda de gênero no bloco. A ministra paraguaia Alicia Pomata ressaltou a importância de colocar as mulheres no centro das políticas regionais, ideia que tem apelo político e simbólico entre os participantes.
Apesar do consenso retórico, o plano enfrenta desafios práticos: tradução de compromissos em legislação nacional, articulação entre sistemas judiciais heterogêneos, capacitação de forças de segurança e financiamento de políticas públicas. Para além da boa vontade diplomática, o pacto será um teste para a capacidade do Mercosul de converter declarações em medidas operacionais com indicadores claros — ponto em que governos costumam se desgastar quando expectativas sobem sem resultados concretos. O avanço da proposta sinaliza, no entanto, um reconhecimento da violência de gênero como questão regional e impõe ao bloco a necessidade de metas e mecanismos de fiscalização compartilhados.