A Meta reconheceu que 'problemas técnicos' explicam parte da redução do alcance de postagens ligadas à campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e ao mesmo tempo negou que tenha beneficiado as publicações do senador Flávio Bolsonaro. A resposta da empresa veio após a campanha do PT acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), que passaram a exigir esclarecimentos formais — o TSE deu prazo de 48 horas para explicações.
No comunicado, a campanha de Lula afirma que levantamentos internos da Secretaria Nacional de Comunicação mostram que a página de Flávio Bolsonaro registrou, em média, 2,96 vezes mais engajamento que a de Lula, apesar de ter 17,2% menos seguidores, e considera tais diferenças como indício de interferência. A Meta rebateu dizendo que as alegações são 'simplesmente falsas' e que muitos dos problemas técnicos apontados não afetaram exclusivamente o Brasil.
O episódio volta a colocar a empresa no centro de uma disputa sobre a transparência das plataformas em períodos eleitorais. O histórico da Meta alimenta o clima de desconfiança: casos como o da Cambridge Analytica — que explorou dados do Facebook para direcionar campanhas em 2016 — e o reconhecimento, em março de 2018, de falhas no sistema, além da multa de US$ 5 bilhões aplicada pela Comissão Federal de Comércio dos EUA em julho de 2019, são lembrados como precedentes que fragilizam a defesa da companhia.
Há ainda um componente político-institucional que amplia o risco para a Meta: a intervenção de TSE e ANPD transforma uma disputa de alcance em questão regulatória e de integridade eleitoral. Para o PT, a perda de visibilidade teria impacto direto na comunicação de propostas e programas — a nota citou efeitos sobre iniciativas de campanha como o fim das 'BETs', da 'escala 6x1' e o chamado 'tesouraço' contra programas sociais — e pede investigação. Para o Judiciário e o regulador de dados, a questão exige provas, auditoria dos algoritmos e clareza sobre os critérios de moderação e distribuição de conteúdo.
No plano político, o caso acende alerta: se a Meta não apresentar evidências robustas que sustentem a explicação técnica, a empresa terá de enfrentar aumento de pressão regulatória, desgaste público e risco de medidas punitivas ou exigência de auditorias independentes. Para o PT, a disputa alimenta a narrativa de que interesses da moderação e dos algoritmos podem afetar o jogo eleitoral; para a Meta, a defesa passa por provar isonomia e restabelecer confiança. Nos próximos dias, o teor das respostas ao TSE e à ANPD e a eventual divulgação de logs ou auditorias independentes definirão se o episódio vira crise pontual ou antecedente de mudança mais estrutural na regulação das redes no Brasil.