Mesmo afastada dos holofotes desde o episódio público envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Michelle Bolsonaro conserva um reservatório de influência junto ao eleitorado conservador. Levantamento do instituto Meio/Ideia divulgado nesta quarta indica que 15,4% dos entrevistados citam espontaneamente a ex-primeira-dama quando questionados sobre qual mulher detém mais poder atualmente no país — à frente da primeira-dama Rosângela da Silva (9%) e da ministra do STF Cármen Lúcia (4,5%). Os números confirmam que, apesar do recolhimento, Michelle mantém presença simbólica e política significativa.
O efeito político desse retrato, entretanto, é ambíguo. Fontes ouvidas pelo Correio Braziliense descrevem um “momento de reflexão” e relatam críticas que vieram sobretudo de setores da própria direita. Esse atrito interno expõe fragilidades na articulação do PL: uma liderança que tem capital eleitoral entre mulheres evangélicas e conservadoras, mas que sofre desgaste causado por conflitos familiares e públicos. Nesse sentido, a pesquisa acende alerta para quem apostava numa projeção pública rápida e irrestrita da ex-primeira-dama após sua atuação à frente do PL Mulher.
Os dados sobre percepção das declarações de Michelle tornam o quadro ainda mais complexo. Para 35% dos entrevistados as falas são mais verdadeiras do que falsas, e 29% as consideram totalmente verdadeiras; na outra ponta, 29% avaliam-nas mais falsas do que verdadeiras. O cenário revela um país dividido sobre a credibilidade do episódio, o que amplia desgaste político sem necessariamente aniquilar a influência que ela exerce em seu núcleo de apoio. É um sinal de que a força simbólica da ex-primeira-dama sobrevive como capital político, mas com limites claros de penetração.
Do ponto de vista estratégico, a atual situação impõe escolhas ao campo conservador: preservar a base consolidada em torno de Michelle ou expô-la a uma escalada de confrontos públicos que podem corroer o apoio que ainda existe. Para o PL, e eventualmente para aliados que calculam futuras composições eleitorais, a equação é delicada: capitalizar a popularidade medida pela pesquisa sem pagar o preço de uma crise de imagem que poderia desgastar candidaturas, alianças e a própria narrativa de unidade. Em suma, o levantamento é um retrato do momento, que reforça a importância política de Michelle, mas também complica a narrativa oficial e acende um alerta sobre custos políticos e institucionais.