A adesão pública de Miguel Reale Júnior à campanha digital liderada pelo deputado André Janones chama atenção pelo simbolismo: um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff agora publica imagem fazendo o gesto em 'L' em apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. O ato, coordenado no sábado (17/10) pelo movimento 'Exército do Lula', inclui participação de ministros, parlamentares e artistas e foi pensado para ampliar o uso das cores nacionais entre aliados do petista.

A mudança de posicionamento de Reale Júnior, que formalizou seu apoio em carta intitulada 'Cuidado com o precipício', não é apenas anedótica. Vinda de um jurista ligado a uma ação política que marcou profundamente a última década, a adesão serve para neutralizar uma parte da crítica oposicionista que tenta associar exclusivamente Lula a determinado eixo ideológico. Ao mesmo tempo, reforça a narrativa do campo pró-Lula de formar uma frente ampla — que inclui figuras com histórico crítico ao PT — diante do que o jurista classificou como risco à democracia caso a oposição vença.

No documento e nas manifestações públicas, Reale Júnior destacou a preocupação com a possibilidade de aprovações legislativas controversas, como uma anistia ligada aos atos de 8 de janeiro, que poderiam alcançar ex-dirigentes do bolsonarismo. A participação na campanha reforça esse alerta e entrega ao eleitorado moderado um argumento político concreto: há críticos do passado que hoje preferem o candidato petista diante de riscos institucionais apontados por setores jurídicos e civis.

Politicamente, o gesto tem efeito simbólico e prático. Simbolicamente, ajuda a desconstruir a hegemonia cultural que parte do bolsonarismo tentou construir sobre símbolos nacionais. Na prática, a adesão pode ser usada pela campanha de Lula para atingir eleitorado não alinhado à esquerda, oferecer contrapeso a ataques sobre passado petista e ampliar a imagem de amplitude da coalizão. Para a oposição, a repercussão sinaliza necessidade de reposicionar argumentos e evitar a personificação da disputa em símbolos que já circulam em múltiplos polos.

O episódio também indica que a disputa avança para um estágio em que figuras com trajetórias críticas ao PT passam a atuar como peças de comunicação política — algo que pode reforçar a polarização e, ao mesmo tempo, abrir espaço para negociações de narrativa no curto prazo. Resta ver se o custo simbólico de tal realinhamento será mensurado pelo eleitorado como credibilidade institucional ou como oportunismo político.